005 Eu sou o filho legítimo, o mais extraordinário de todos.
Ainda bem que o Yang Changfan de agora era uma rocha inabalável; o grande pilar permanecia firme como um pinheiro, sem ceder um milímetro, embora não fosse exatamente o momento mais apropriado para tal rigidez. Não era justo, contudo, culpá-lo por endurecer-se na hora errada—culpa era de Qiao’er, que naquele instante o fitava com olhos lânguidos, como se no mundo não houvesse mais nada além de seu esposo. Se aquilo continuasse, temia Yang Changfan que acabaria mais uma vez morrendo de “excesso de entusiasmo”.
Recolheu-se, então, e respirou fundo, como se ao seu redor ninguém mais existisse, e perguntou à Qiao’er, com voz terna: “Já não sou mais tolo, e mesmo assim não estás contente?”
“Tolice ou não, o que importa é que estejas vivo”, respondeu Qiao’er com um sorriso tolo.
O coração de Yang Changfan quase se derreteu.
Sim, era isso: viver. Não apenas sobreviver, mas viver com plenitude—e não apenas para si, mas também para sua mãe austera e sua esposa delicada. Já causara problemas em demasia durante esta vida.
A partir de agora, faria de si um homem sagaz.
De certo modo, seria mais astuto do que qualquer outro sob o céu.
Doravante, nada de “faltar só um pouco”.
“Basta, conversaremos com calma depois; por ora, deixe-me cumprimentar os presentes”, disse Yang Changfan, quase sem perceber que acabara de renascer, tanto em espírito quanto—de certo modo—em carne. E, com um gesto suave, instruiu à esposa: “Traga-me um pouco d’água. Sinto tamanha sede que mal posso falar.”
“Sim, veja só como estou distraída”, respondeu Lin Qiao’er, batendo levemente na própria testa e apressando-se a servir-lhe água.
Yang Changfan esforçou-se então para erguer o corpo debilitado, assentiu levemente e, um a um, fitou os que ali estavam. Por fim, falou: “Ainda não tenho forças para me levantar e saudar-vos como manda o costume. Pai, peço vossa compreensão.”
Ao proferir tais palavras, seus olhos refletiam algo que o Yang Changfan dos tempos de Jiajing jamais possuíra—
Sabedoria.
Todos, instintivamente, sentiram um estremecimento no âmago, tamanha era a estranheza daquela súbita transformação. O mais inquietante era a sensação de terem sido perscrutados até a alma por aquele olhar.
Sim, Yang Changfan falava com respeito, mas observava e julgava. Precisava associar cada voz a cada rosto.
Primeiro, o pai: o velho mestre Yang, Yang Shouquan, homem de porte altivo e semblante austero. Contava quarenta e dois anos, vigor ainda de meia-idade, ostentando certa opulência típica dos proprietários de terras. Nos traços, porém, havia mais rigidez do que sabedoria. Yang Changfan não lhe nutria particular afeição, tampouco ódio. Se algo tinha a cobrar, era a indiferença demonstrada quando Qiao’er tentara pôr fim à própria vida—ainda que, com o próprio pai, pouco havia a cobrar; nesta época, os filhos deviam obediência absoluta aos pais, a lei era clara e severa.
Depois, a concubina, madrasta de Yang Changfan: Zhao Siping, mulher de quase trinta anos, de traços sedutores, cuja altivez tinha fundamento. Contudo, seu espírito era raso e sua astúcia, demasiado óbvia—qualquer pensamento malicioso logo se denunciava pelo brilho nos olhos, como agora. Antes, seu poder vinha do fato de ter dado um filho ao patriarca—mas, ah, as coisas mudaram, minha senhora.
Por fim, o irmão mais novo, cuja beleza herdara da mãe, junto com a esperteza. Toda a sua astúcia estava estampada no rosto—o que, no fim das contas, pouco importava; velava pelos próprios interesses e pelos da mãe, o que era natural. O problema foi ter tentado forçar Qiao’er ao desespero, atitude verdadeiramente cruel. Essa conta ficaria em aberto—irmãos, sim, mas as dívidas precisam ser quitadas.
Foi ao encará-los de pé, que Yang Changfan se deu conta: agora os olhava de cima; parecia ter um a quase dois palmos de vantagem. Não era de admirar que lhe faltasse juízo—todo o crescimento fora para os ossos.
Mas quanto media, exatamente? Isso seria assunto para depois. Por ora, havia de lidar com o que tinha diante de si.
“Não precisa apressar-se em fazer reverência. Deite-se e descanse”, disse o velho mestre Yang. Havia, no tom, uma transformação notável—de antes, frieza e desdém; agora, um leve traço de cuidado. Para o patriarca de uma casa abastada, nunca era demais ter mais um filho.
“Sim, farei como o senhor ordena.” Yang Changfan também ansiava por sentar-se, pois só assim poderia encarar a todos de igual para igual.
Assim que se sentou, Qiao’er lhe trouxe a água, antevendo a sede do marido. Trouxe-lhe uma tigela grande, que ele tomou de um só gole, e, devolvendo-a à esposa, limpou os lábios com desdém e soltou uma gargalhada retumbante: “Agradeço ao Rei dos Infernos por não me levar!”
Tendo passado pela morte, renascido e morrido outra vez, para então reviver, Yang Changfan agora explodia numa exuberância que os mortais não podiam compreender. Até o velho mestre Yang, vendo o outrora tolo filho, espantou-se: seria mesmo este seu primogênito?
Recobrada a compostura, Yang Changfan voltou-se para os presentes e, sem cerimônia, acenou: “Pai, mãe, madame Zhao, irmão—por favor, sentem-se todos.”
Os olhares se cruzaram, inseguros. O velho mestre, sentindo-se deslocado, respondeu, titubeante: “Por que não descansas mais um pouco?”
“Estou bem”, replicou Yang Changfan com um aceno. “Sentem-se, por favor. Temos muito a discutir sobre o que aconteceu.”
A concubina, percebendo o rumo desfavorável dos acontecimentos, forçou um sorriso: “Descanse primeiro, depois conversamos no salão dos fundos.”
Mas Yang Changfan entortou os lábios, dizendo lentamente: “Minha mãe ainda está sentada no chão. Em vez de ajudá-la a levantar, queres tomar a palavra?”
Os olhos da concubina se arregalaram de indignação—seria agora ela a vítima?
Acusar Yang Changfan de abuso seria injusto; conforme as regras da casa—na verdade, impostas pela própria lei—mamãe Wu era a esposa legítima, Zhao, apenas uma concubina. A concubina devia reverência à esposa, sentar-se atrás, manter-se discreta, e só falar quando autorizada. No lar dos Yang, no entanto, devido à falta de competência do filho legítimo, o patriarca fazia vistas grossas.
Mas, a partir de agora, tudo seria diferente.
A concubina, desacostumada a ser contrariada pelo “tolo”, demorou a assimilar a mudança. Depois de encarar Yang Changfan por alguns instantes, voltou-se ao patriarca, em súplica muda—esperando que ele a defendesse.
“Hmm…” O velho mestre Yang gostava de iniciar as frases com esse murmúrio reflexivo. Após breve hesitação, assentiu: “Changfan tem razão.”
Ao ouvir isso, Zhao Siping quase cuspiu sangue.
Desde quando estavam tão próximos? Ainda há pouco o chamavam de tolo, e agora já é “Changfan”?
O irmão, percebendo o clima, enxugou o suor da testa e apressou-se a ajudar: “Mãe, venha sentar-se na cadeira…”
Ao menos, percebeu Yang Changfan, o irmão tinha algum juízo—sabia o valor da paciência e da prudência, ainda que sua relutância fosse visível no rosto.
Assim, Yang Changgui conduziu a mãe legítima até a cadeira.
O velho mestre sentou-se ao lado da esposa. Zhao Siping, insatisfeita, tentou arrastar uma cadeira para junto do marido, mas o filho a conteve, e ambos sentaram-se atrás.
Assim estava correto: a ordem entre jovens e anciãos, legítimos e ilegítimos, estava restabelecida. Eis o feudalismo, esta tradição nociva que a Nova China fez por bem abolir, mas que ali ainda reinava. Com essas regras, tentaram levar Qiao’er ao desespero e extinguir a linhagem de Changfan. Agora, pois, seria com elas que Yang Changfan lhes imporia respeito, demonstrando, sem equívocos, quem era o filho legítimo, quem era esposa, quem era concubina—e que, acima de todos, estava ele, o primogênito, com plenos direitos.