008 O Idiota Padrão

Kembali ke Dinasti Ming Menjadi Bajak Laut Saya menambahkan jamur untuk Anda. 2284kata 2026-03-14 14:35:12

No entanto, quando Qiao’er entrou trazendo a papa de arroz, a questão de ser autêntico ou não perdeu, por um instante, sua importância. Após uma noite de repouso absoluto, Yang Changfan encontrava-se revigorado e cheio de energia; ergueu-se alegremente, perscrutou os arredores à procura de um relógio — hábito do qual não conseguia se desvencilhar — e, não o encontrando, viu-se obrigado a fazer a pergunta que, dali em diante, repetiria incontáveis vezes:

— Que horas são?

— Já deve estar quase ao meio-dia — respondeu Qiao’er, sentando-se junto à cama, sempre cuidadosa, com a tigela de papa nas mãos.

Tal maneira de dormir seria corriqueira para um estudante de mestrado como Yang Changfan, mas, naquela época, soava escandalosa — um sinal de extrema falta de cerimônia e de ócio desmedido. Todavia, na residência da família Yang, todos já haviam se acostumado com os hábitos ilógicos do Changfan deficiente, e ninguém mais lhe dirigia reprimendas.

Ainda que não lhe dissessem nada, sempre haveria quem o servisse. Por dezesseis ou dezessete anos, sua mãe ocupou essa função; há meio ano, porém, o encargo recaiu sobre sua esposa.

Com extrema delicadeza, a jovem esposa mergulhou a colher na papa branca, testou cuidadosamente a temperatura junto aos lábios e, só então, levou-a à boca do marido.

Yang Changfan sentiu-se um tanto constrangido — afinal, era um homem feito, e ser servido assim lhe parecia um exagero. Tomou o recipiente de porcelana e disse:

— Eu mesmo posso fazer isso.

— Você já quebrou tantos, se deixar cair outro, mamãe vai reclamar — Qiao’er olhou-o com evidente apreensão.

Yang Changfan não pôde senão balançar a cabeça, resignado: sabia que levaria tempo para que todos aceitassem sua nova normalidade. Bebeu a papa em poucos goles e apressou-se a vestir-se. Qiao’er, solícita, apresentou-lhe as roupas preparadas, e só então Yang Changfan percebeu o quanto poderia ser trabalhoso alcançar verdadeira autonomia.

Eram vestes e calças comuns, de gente simples, nada além do trivial; mas, no que tocava ao modo de vestir e atar, tudo se tornava dificultoso para quem viera de um tempo habituado a roupas práticas e confortáveis. Mais complicado ainda era aquele malfadado lenço de cabeça — pois, como todos usavam cabelos longos, era preciso recorrer a lenço ou chapéu para manter a compostura adequada. Conforme o estatuto social, havia regras rígidas sobre o que se poderia usar na cabeça. Tentar pôr aquele lenço, aparentemente simples, revelou-se tarefa árdua para Yang Changfan.

A vida, por certo, era mais penosa do que imaginara. O simples ato de vestir-se sozinho constituía, para ele, o primeiro grande desafio daquela nova existência. Tal embaraço, ao tentar ser autossuficiente e falhar, estampou-lhe no rosto uma expressão de derrota e desorientação.

Mas Qiao’er, sempre atenta, não se perturbou. Para ela, o fato de o marido compreender o que era o fracasso já representava um milagre. Sem nada dizer, com destreza admirável, vestiu-o dos pés à cabeça em menos de um minuto, deixando Yang Changfan completamente atônito, tomado de genuína admiração.

Rindo, Qiao’er trouxe-lhe um espelho de bronze, exibindo um sorriso travesso, como quem aguarda elogios.

— Assim é que se faz! — exclamou Yang Changfan, admirado. Então, num gesto descontraído, tirou o lenço da cabeça.

— Ah... — Qiao’er ficou um instante atônita; dessa vez, o sentimento de frustração era dela. O olhar que dirigiu ao marido misturava mágoa e ressentimento — Como se dissesse: “Você ainda acha que não ficou bonito? Oh, céus...”

No entanto, Yang Changfan voltou-se para o espelho. Observando o modo como o lenço fora posto, vasculhou as parcas lembranças de sua encarnação anterior e, imitando o gesto, enfaixou a cabeça. Em poucos instantes, tinha reproduzido o arranjo original do lenço. Comparou, satisfeito, e perguntou:

— Está correto assim?

Qiao’er não pôde conter o espanto. Céus! Ele não só conseguia pronunciar frases inteiras, como já demonstrava capacidade de aprender!

— Está certo? — insistiu Yang Changfan.

— Marido, você é incrível... — Qiao’er levou a mão à boca, quase às lágrimas.

Yang Changfan sentiu-se um tanto ridículo; a última vez que ouvira tal elogio fora aos quatro ou cinco anos, quando aprendera a amarrar os próprios sapatos e um primo distante lhe dirigira um joinha.

— Está quase perfeito, só falta um detalhe. Deixe que lhe explico... — Qiao’er, recomposta, passou a ensinar-lhe os pormenores.

Depois de ouvir, Yang Changfan tentou mais uma vez.

Perfeito. Um lenço de camponês, impecável!

Qiao’er pulava de alegria. — Marido, você é tão inteligente!

— Está me insultando, por acaso?

— Não, não! De forma alguma. Se você tivesse melhorado alguns anos antes... Ah, se tivesse melhorado antes... — Qiao’er deixou-se levar por seus devaneios — Não só lenço, mesmo nos exames, tudo seria fácil para você.

— Que exames?

— Ora, que outros seriam?

Ah, os malditos exames imperiais.

— Não tenho chance nesses — disse Yang Changfan, abanando a mão. Na verdade, podia ser considerado, com esforço, um “especialista em passar raspando” nas provas: só fazia os exames que sabia que podia passar e evitava os que estavam além de suas capacidades. Quanto aos exames imperiais de que Qiao’er falava, tinha certeza absoluta de que não teria a menor chance.

Qiao’er assentiu, resignada — não que concordasse com ele, mas porque, já em idade avançada e começando tão tarde, não havia tempo. Mesmo um prodígio não conseguiria. Já viu algum gênio de quase vinte anos e quase um metro e noventa?

— Ah! — exclamou, tapando a boca, ao lembrar-se de algo que o entusiasmo com o lenço quase lhe fizera esquecer — Papai pediu que perguntasse como você está. Será que pode almoçar conosco?

— Sem problema — respondeu Yang Changfan, acenando afirmativamente. — Quanto às regras de conduta, você ainda terá de me ensinar muito. Aqui em casa todos me toleram, mas lá fora ninguém vai passar a mão na minha cabeça. Se faltar com o decoro, será ruim.

— Não se preocupe, ninguém vai se importar, mesmo lá fora.

— Como assim?

Qiao’er refletiu por um momento, depois mostrou a língua e disse:

— Em todo o vilarejo de Lihai — não, em toda a comarca de Shaoxing —, quem não conhece você?

O jovem mestre Yang, famoso por toda parte!

Na verdade, era até bom: ninguém se incomodava com um deficiente, e assim Yang Changfan não corria o risco de ofender alguém por desconhecer as regras. Ao contrário, cada frase correta, cada saudação bem-feita, seriam vistas como grandes conquistas pessoais, dignas de aplausos comovidos.

Ainda faltava algum tempo para o almoço. Yang Changfan pediu a Qiao’er que fosse ajudar na cozinha e, por sua vez, permaneceu no quarto, olhos cerrados, disposto a organizar seus pensamentos. Era chegada a hora de pôr ordem em tudo.

Hoje, no trigésimo quarto ano do reinado de Jiajing, nono dia do segundo mês.

Neste cenário, vila de Lixi, condado de Kuaiji, comarca de Shaoxing, Zhejiang; residência da família Yang.

Quem sou eu, isso já está claro. Mas não importa tanto; o que importa é: quem é o meu pai?

Yang Shouquan, aprovado nos exames provinciais no décimo sétimo ano de Jiajing.

Meu Deus, eu nem percebera que o velho tinha mérito e fama!

Calculando assim, há dezessete anos, ele foi aprovado nos exames — ainda era jovem, tinha apenas vinte e cinco anos! Dá para imaginar o prestígio daquele ano: quanto ouro e belas mulheres não lhe bateram à porta? Antes, o velho Yang jamais teria conseguido desposar uma beldade como Wu Linglong, mas, depois do exame, tornaram-se um par à altura.

Como homem ambicioso, o sucesso nos exames provinciais era apenas o início; seu verdadeiro objetivo era algo maior — tornar-se jinshi, um alto grau no serviço imperial. Assim, nova rodada de preparação teve início, como quem termina o ensino fundamental para enfrentar o vestibular e o mestrado. Justo quando o velho Yang, após tantas alegrias, serenava o espírito para estudar, Yang Changfan veio ao mundo — e logo ao nascer era diferente de todas as outras crianças, com as feições e gestos típicos de um deficiente mental.