Capítulo 6: O Verdadeiro Propósito da Chave
Naquela noite, Jiang Qiaozhi, encarregada de dirigir, não chegou a ver o rosto de Fang Haohui. Apenas percebeu, quando foi conduzida por Li Jiu ao recinto, que o olhar de Fang Haohui sobre ela continha um indizível traço de perigo.
Quando Yu Weijun declarou: “Daqui a pouco a levaremos para casa, para interrogá-la com calma”, uma explosão ensurdecedora ressoou na mente de Jiang Qiaozhi, deixando-a completamente atônita de terror. Lançou imediatamente um olhar suplicante a Li Jiu, mas este, em vez de ajudá-la, abriu a porta com um visível desdém e, sem dizer palavra, guiou-a, juntamente com os que a mantinham sob custódia, para a sala vizinha.
— Tio Jiu! Ajude-me… Eu não fiz nada! Por favor, peça ao Diretor Li que intervenha…
Jiang Qiaozhi sabia que o grande patrão, Li Shaofeng, era cunhado de Yu Weijun, e que ela própria era a cantora mais célebre do Red Moon Nightclub... Li Shaofeng poderia, por certo, interceder por ela!
Contudo, Li Jiu limitou-se a abanar a cabeça com frieza e replicou:
— As ordens do Jovem Yu são irrecusáveis, nem mesmo o Diretor Li ousaria contestá-las… Resigne-se ao destino, menina! Francamente, não consigo entender como você é tão propensa a confusões; mal a livrei do incidente com o Segundo Jovem Huang, e agora se envolveu com a família Fang de Longcheng...
— Que família Fang? Eu sequer vi esse Jovem Fang... — Jiang Qiaozhi ainda tentou se defender, mas Li Jiu e A Biao já haviam fechado a porta, isolando-a do mundo.
Após trancar a porta, Li Jiu voltou-se para A Biao e o outro segurança, forçando um sorriso:
— Os jovens senhores ainda têm muito o que se divertir! Que tal irmos tomar um drinque em outro lugar?
Diante do olhar sugestivo de Li Jiu, A Biao e seu companheiro sorriram-se mutuamente, anuíram e seguiram-no para longe...
Nenhum deles percebeu, porém, que, ao se virarem, uma sombra furtiva escorregou para as trevas no vão da escada próxima!
Embora soubesse de antemão que suas forças eram ínfimas diante dos guarda-costas das famílias Yu e Fang, Zhou Ze, após muito ponderar, decidiu subir sorrateiramente para averiguar a situação!
Para sua surpresa, mal alcançou o patamar da escada, ouviu Jiang Qiaozhi sendo retirada da sala 1, e logo depois pôde distinguir, de forma indistinta, seu diálogo com Li Jiu no interior do recinto 2...
Escondido num recanto, Zhou Ze observou Li Jiu e A Biao se afastarem e percebeu que diante de si se abria a melhor das oportunidades: se conseguisse, naquele interregno, libertar Jiang Qiaozhi, e se partissem imediatamente, ainda haveria esperança de escaparem de Shangjing... Quanto ao destino depois da fuga, e como evitariam a perseguição, já não podia preocupar-se tanto!
Decidido, Zhou Ze aproximou-se sorrateiramente da porta do recinto 2.
Fora o próprio Li Jiu quem trancara a porta; Zhou Ze lembrava-se disso claramente. Não possuía, contudo, a habilidade de arrombar fechaduras... Desesperado, recorreu ao acaso: retirou do pescoço a chave que sempre trazia consigo e tentou introduzi-la na fechadura.
Naquela noite em que atravessara o tempo, a porta blindada de sua casa inexplicavelmente não se abrira, e foi justamente com aquela chave que lograra abri-la. Embora não pudesse assegurar que tal chave milagrosa funcionaria também ali, decidiu arriscar...
Para sua surpresa, ao girar a chave para a esquerda sentiu a fechadura ceder ligeiramente, e num ímpeto girou com força...
Com um “clique” audível, a porta se abriu diante de seus olhos!
No instante em que Zhou Ze empurrou a porta, pronto para chamar Jiang Qiaozhi para fugir, foi tomado por um espanto absoluto: estava de volta à sua própria casa!
O recinto, austero e quase desprovido de móveis, exibia uma disposição que lhe era tão familiar quanto as linhas de sua mão. Zhou Ze voltou-se imediatamente para o lado de fora...
Havia retornado! Havia realmente atravessado de volta!
Do corredor, ao mirar pela janela, reconheceu de pronto: era o número 325 do Jardim da Felicidade!
De volta ao lar, após tanto tempo, Zhou Ze sentiu a mente tomada por um turbilhão de pensamentos...
Desde que atravessara para o Domínio Sagrado de Kunlun, ansiara a cada instante pelo retorno à Terra. O mundo de Kunlun era régido pela supremacia da força; para alguém comum como ele, com carne e ossos mortais, a Terra era incomparavelmente mais segura.
Ainda que, naquele mundo, ele não passasse de um simples entregador de encomendas, alguém que lutava para sobreviver nas camadas mais baixas da sociedade, ao menos ali existiam leis e proteção; bastava-lhe viver honestamente e respeitar as normas, e teria paz.
Já em Kunlun, os simples mortais eram como formigas: basta recordar o instante em que encarou A Biao, com o coração batendo em descompasso, temendo que, a qualquer momento, o adversário pudesse matá-lo impunemente...
Diante de tão iminentes perigos, não desejava, de modo algum, retornar.
Mas... e Jiang Qiaozhi?
Por sua causa, uma mulher inocente encontrava-se em terrível perigo, prestes a sofrer um infortúnio... Como poderia ele permanecer indiferente?
E ainda havia Lingyun. Embora não fossem ligados por sangue, nos últimos tempos a jovem o tomara como se fosse seu próprio irmão...
Poderia ele, então, abandoná-la e partir sem olhar para trás?
Essas indagações atormentavam-lhe a mente, provocando uma pressão insuportável.
Zhou Ze pegou a chave milagrosa e, fitando-a repetidas vezes, agora tinha certeza: suas duas travessias haviam ocorrido graças a ela.
Enquanto abria a porta, rememorou, nos mínimos detalhes, cada movimento! Girando para a esquerda, sentido anti-horário, retornava à Terra; na primeira travessia à Kunlun, girara-a para a direita, no sentido horário!
Compreendendo, enfim, o método da travessia, Zhou Ze sentiu-se um pouco mais confiante!
Se agisse rapidamente, poderia voltar para salvar Jiang Qiaozhi, ir imediatamente à casa da família Jiang para buscar Lingyun... e então regressar!
Ainda que não pudesse explicar-lhes a natureza fantástica da “travessia”, ao menos encontrara uma via de escape para a crise iminente.
Animado por tal pensamento, Zhou Ze pôs-se a agir sem demora: apanhou uma mochila, abriu gavetas e armários, recolheu tudo o que julgou útil e atirou ao acaso dentro da bolsa.
“Zzz... zzz... zzz...”
Fitando as faíscas azuladas do taser, um leve sorriso curvou-lhe os lábios.
Os cultivadores também eram humanos, embora dotados de força física superior e de certos dons especiais... Zhou Ze não tinha certeza de que o taser seria eficaz contra eles, mas, naquele momento, era a única arma ao seu alcance.
Preparado, Zhou Ze fechou a porta ao sair, introduziu a chave na fechadura... e girou-a à direita!
Ao abrir novamente a porta, lá estava Jiang Qiaozhi, presa no reservado!
— O que pensa que está fazendo, agindo às escondidas? — bradou uma voz.
No momento em que Zhou Ze acenava para Jiang Qiaozhi, sentiu um braço enlaçar-lhe o pescoço!
O grito furioso de A Biao explodiu-lhe aos ouvidos, mas Zhou Ze não hesitou: descarregou o taser sobre ele...
— Aaah...
Enquanto o urro agônico de A Biao ecoava, Zhou Ze apenas viu um lampejo rubro disparar em direção ao seu peito... e então tudo se fez trevas, e ele perdeu os sentidos.