Capítulo Quatro: Demônios e Espíritos
As palavras do meu avô eram como uma pá de ferro, escavando furiosamente a fortaleza do ateísmo em que me entrincheirei por mais de vinte anos; de tal modo que, após assistir ao vídeo, minha alma permaneceu por longo tempo inquieta. Ao largar o telefone, retirei de debaixo do travesseiro aqueles livros que o avô me deixara. Fitando os três caracteres incisivos e solenes estampados na capa, a última centelha de dúvida que restava em meu coração dissipou-se por completo. Aliviado de minhas inquietações, abri lentamente o “Registro do Mestre Celestial” e, com extremo cuidado, pus-me a perscrutar seu conteúdo.
Desta vez, o capítulo que li chamava-se “Sobre Chimei Wangliang”—um tratado que narra as façanhas dos mestres celestiais ao longo das eras na subjugação de espectros e demônios, assim como os métodos empregados em tais feitos. Ao abandonar por inteiro meus preconceitos, descobri que a leitura destas páginas se tornava surpreendentemente leve, quase como se cada palavra se gravasse indelevelmente em minha memória.
Chimei Wangliang não se refere, de fato, a quatro tipos distintos de fantasmas, mas sim à totalidade de entidades espectrais—abrangendo não apenas as descritas nos livros, mas também aquelas ainda desconhecidas aos homens, pois o mundo é vasto e repleto de maravilhas insondáveis. Entre as descrições, predominam os “fantasmas vingativos”, cuja gênese se dá, basicamente, de três formas.
A primeira advém dos que perecem de forma violenta, seja por acidente ou homicídio. Como suas vidas não se esgotaram naturalmente, resta-lhes uma imensa carga de rancor, que, corroendo a alma humana das três que compõem o espírito, impede-lhes de seguir ao submundo e reencarnar, tornando-os almas errantes e solitárias. Caso tais espectros venham a prejudicar os vivos, absorvendo-lhes a essência vital, convertem-se em fantasmas malignos; e, acumulando energia suficiente, transformam-se nos temidos “fantasmas de veste vermelha”. O livro adverte expressamente: se, por infortúnio, deparar-se com um fantasma de veste vermelha, resta apenas uma palavra—fugir!
A segunda origem provém da morte em massa, quando inúmeros corpos são lançados juntos numa cova comum—os chamados “poços de dez mil mortos”. Tal tragédia não é rara na história: Bai Qi, o lendário general de Qin, enterrou vivos quarenta mil soldados de Zhao na Batalha de Changping; o Rei de Chu, Xiang Yu, massacrou mais de duzentos mil prisioneiros de Qin numa única noite; e durante a guerra contra os invasores japoneses, milhões de vidas fo