Capítulo Sete: Já foi enterrado em paz
Olhando para a expressão de Jun Shiraki, Arashi Hanekawa pressentiu de imediato que algo não ia bem. Inquieta, insistiu na pergunta:
— Shiraki-kun, como conseguiu expulsar aquele espírito funesto?
Como o expulsou?
Com minhas próprias mãos laboriosas, xiu, pá...
Evidentemente, Jun Shiraki jamais poderia responder assim.
Apontando para o solo, respondeu com gentileza:
— Hanekawa-san, não precisa se preocupar. Aquele espírito funesto já encontrou repouso sob a terra.
Arashi Hanekawa ficou completamente atônita.
Repouso sob a terra?
Que método inusitado de exorcismo seria esse?
Seria possível...?
Um calafrio percorreu-lhe a espinha. Recordou-se, de súbito, dos filmes de yakuza que assistira em sua infância.
Será que esse gentil sacerdote que parecia tão afável havia transformado o espírito num bloco de concreto, atirando-o nas profundezas da Baía de Tóquio?
Isso...
Seria uma crueldade extrema, não?
De todo modo, uma vez confirmado que o espírito fora de fato exorcizado, ela já não precisava mais se preocupar.
Com um leve giro de pulso, as catorze contas do seu rosário estremeceram discretamente. Ela se curvou e disse:
— Shiraki-kun, como não fui eu a exorcizar o espírito, preciso voltar e devolver o adiantamento ao cliente.
— Sendo assim, poderia me acompanhar? Talvez seja necessário que você comprove o ocorrido.
— Hã? Devolver o dinheiro? — Jun Shiraki arregalou os olhos, surpreso.
Tecnicamente, Hanekawa Arashi recebera a incumbência antes dele; de certo modo, ele havia lhe tomado o trabalho.
Ao pensar nisso, Jun Shiraki sentiu uma ponta de culpa.
Enfiou a mão no bolso.
Ali ainda guardava as dez mil ienes que recebera do senhor Mitsui no dia anterior.
— Quanto precisa devolver? Tem dinheiro suficiente consigo? Se faltar, posso lhe emprestar um pouco.
— Ah, não é necessário se preocupar, Shiraki-kun, o adiantamento não foi grande coisa — respondeu Arashi, sorrindo e gesticulando com a mão.
— Apenas cem mil ienes.
Jun Shiraki ficou boquiaberto.
Como assim, apenas cem mil?
Será que ela não compreende o valor de cem mil ienes?
Isso equivale à sua renda de um mês inteiro na baixa temporada!
Lentamente, Jun Shiraki baixou os olhos, fitando os belos olhos de Arashi Hanekawa com expressão grave e concentrada.
— Hanekawa-san, permita-me fazer-lhe uma pergunta.
— Pois não, Shiraki-kun — respondeu Arashi, um tanto surpresa por vê-lo tão sério de súbito.
Será que algo que dissera ofendera aquele sacerdote?
— No Templo Raimyo, quanto se cobra por um exorcismo?
— Bem... normalmente, entre trezentos mil e quinhentos mil ienes, aproximadamente. Por quê? — respondeu Arashi cautelosamente.
Seria porque os exorcismos no templo são baratos demais, bagunçando os preços do mercado e incomodando Shiraki-kun? Preciso sugerir ao abade que aumente as tarifas quando voltar!
Trezentos mil a quinhentos mil ienes...
Jun Shiraki sentiu o som do dinheiro escoando como um riacho cristalino aos seus ouvidos.
Pelo mesmo serviço de exorcismo, ele cobrava apenas oito mil ienes!
Mesmo considerando o valor mais baixo, a diferença era de quarenta vezes!
Isso seria o prestígio do Templo Raimyo?
Ah, como gostaria de fazer parte!
Pensando nisso, Jun Shiraki perguntou com sinceridade:
— Hanekawa-san, será que falta um braço forte no seu templo?
Hein?
Arashi Hanekawa olhou para Jun Shiraki, perplexa.
No instante seguinte, não pôde conter uma risada.
— Shiraki-san, pretende converter-se ao budismo?
— Hanekawa-san, está enganada. Refiro-me a um braço forte apenas no sentido físico; eu, naturalmente, continuo fiel às divindades do meu santuário — este é o limite de um sacerdote... — Jun Shiraki tentava explicar-se.
Mas quanto mais se justificava, mais Arashi Hanekawa se divertia.
Que sacerdote curioso!
O céu começava a escurecer. Arashi Hanekawa respirou fundo, buscando refrear o riso, e propôs:
— Shiraki-kun, você tem algum compromisso agora? Conheço um restaurante de tempurá delicioso aqui perto. Como compensação, quando resolvermos o assunto, deixe-me oferecer-lhe um jantar.
Jun Shiraki não fez cerimônia e acenou afirmativamente.
Considerou que assim, ao menos, recuperaria o dinheiro gasto com a passagem de trem.
— Perfeito!
O rosto de Arashi Hanekawa iluminou-se com um sorriso radiante, mas quando se preparava para partir, uma melodia suave de celular soou de repente.
Ela tirou o telefone do bolso; ao atender, sua expressão foi ficando séria, o sorriso desaparecendo.
— Comissário Yamato, entendi. Sim, irei imediatamente... Sim, compreendo.
Ao desligar, voltou-se para Jun Shiraki, o semblante pleno de desculpas:
— Me perdoe, surgiu um imprevisto que requer minha atenção imediata. Precisarei ir agora. O jantar ficará para uma próxima vez.
— Compreendo, Hanekawa-san. O dever vem sempre primeiro.
Jun Shiraki mostrou-se solidário.
Para ser honesto, sentia uma pontinha de inveja.
Outro trabalho a lhe bater à porta!
No mínimo, trinta mil ienes a mais na conta.
Negócios prósperos.
Contudo, foi apenas uma pequena inveja.
Afinal, o Templo Raimyo, com séculos de tradição, produziu monges ilustres ao longo de gerações, e seus honorários condizem com o reconhecimento da população.
Ele próprio, um simples sacerdote de um santuário obscuro como o Tenju, jamais poderia se comparar a quem carrega a experiência de séculos de exorcismos.
Além disso, para esses antigos templos, a renda dos exorcismos talvez seja apenas uma parte insignificante; monges virtuosos buscam propósitos mais elevados.
Proteger o povo, conduzi-lo à iluminação.
Era isso o que Jun Shiraki verdadeiramente respeitava.
Ainda assim, não pôde deixar de sentir certa pena.
Perdera um jantar.
Despediu-se de Arashi Hanekawa e já se preparava para ir embora.
Nesse momento, outro toque de celular ressoou.
Agora era o telefone de Jun Shiraki.
Atendeu.
— Alô?
Após um breve silêncio, uma voz suave e hesitante soou do outro lado.
— É... o Shiraki-san?
— Sim, quem fala? — indagou Jun Shiraki, intrigado.
— Eu... sou Rena Kokonoe, lembra de mim? Fomos colegas na Escola Secundária Shuunoin...
A voz do outro lado foi ficando cada vez mais baixa.
— Ah, a Kokonoe-san da penúltima fileira, junto à janela? — Jun Shiraki recordou-se.
— Isso mesmo! — respondeu Rena Kokonoe, surpresa e contente.
O Shiraki-kun lembrou-se de mim!
Agora posso morrer sem arrependimentos...
Flutuando em êxtase, quase esqueceu o motivo do telefonema.
— Shiraki-san, lembra-se da minha amiga? Yuuri Takanashi, uma garota muito animada, também de nossa classe. Estávamos sempre juntas.
— Sim, lembro-me — Jun Shiraki assentiu.
Devia tratar-se da Takanashi Yuuri, terceira fila, quarta carteira. Jun Shiraki memorizara todos os colegas de escola pela disposição das carteiras.
— Bem... então... — Rena Kokonoe começou a vacilar.
— Kokonoe-san, pode falar abertamente. Se eu puder ajudar, certamente o farei — garantiu Jun Shiraki.
Quando se trata de colegas, sempre vale a pena ajudar. Assim se constroem belas amizades.
Exceto, claro, se for para apresentar-lhe uma namorada — nesse caso, melhor não. Este sacerdote, por ora, dedica-se inteiramente aos estudos.
Do outro lado da linha, Rena Kokonoe respirou fundo, fez uma reverência de noventa graus e exclamou em voz alta:
— Sumimasen!
— Não deveríamos ter seguido você ontem, nem descoberto sua verdadeira identidade!
— Mas prometo que manteremos segredo, não contaremos a ninguém!
— Portanto, por favor, Shiraki-san, seja generoso... e solte a Yuuri-chan!