Capítulo Quatro A Entrevista Impossível
Após passar a noite no dormitório da emissora, na manhã seguinte, logo ao raiar do dia, Feng Yang arrumou-se apressadamente e foi ao portão registrar seu ponto de entrada. Por volta das oito e vinte, começaram a chegar pessoas ao escritório. Uma jovem, vestida com um short jeans, exalando um frescor juvenil, adentrou o recinto. Ao deparar-se com Feng Yang, espreguiçando-se ali, sorriu.
— O que foi? Não dormiu bem ontem à noite?
— Ah, irmã Jing...
Feng Yang retribuiu o sorriso. A recém-chegada era Ning Jing, sua colega, que trabalhava na emissora havia um ano, desde que se formara na universidade — também uma novata, mas alguém que, em geral, lhe tratava com cordialidade.
— De fato, não dormi direito.
— Pois é, se você tivesse dormido bem seria mesmo estranho! — mal Feng Yang terminou de falar, uma voz áspera soou. Junto com ela, entrou um jovem de camisa social de mangas compridas, exibindo um penteado lambido para trás.
— Hehe, Jovem Mestre Feng... — o rapaz de topete aproximou-se, o rosto carregado de zombaria, e continuou:
— Oh, esqueci, você já não é mais o Jovem Mestre Feng. Sua família o expulsou, não foi?
Feng Yang franziu o cenho, mas antes que pudesse responder, o rapaz de topete virou-se, estalando a língua.
— Tsc, tsc, veja só, alguns são galinhas comuns; como poderiam algum dia alçar voo e virar fênix?
— Zhang Yu, que besteira você está dizendo? — protestou Ning Jing, e, ao notar o semblante sombrio de Feng Yang, voltou-se para ele, tentando animá-lo:
— Feng Yang, não dê ouvidos, esse sujeito é um cão sem dono!
— Não se preocupe, irmã Jing, estou bem — Feng Yang balançou a cabeça. Zhang Yu não passava de um figurante; vivia às turras com ele, talvez por ter sido o primeiro a se opor à sua entrada na emissora, alegando que não preenchia os requisitos. Desde então, não perdia uma chance de incomodá-lo.
Mal sabia Zhang Yu que, se Feng Yang quisesse mesmo incomodá-lo, já o teria lançado ao rio para alimentar tartarugas!
O que realmente aborrecia Feng Yang era a família Feng, que, após reiterados ataques, não hesitou em expulsá-lo assim que Feng Tianwen faleceu. Ignoravam que, não fosse por ele, a família já teria ruído por completo.
Agora, até Zhang Yu sabia do seu banimento — certamente asneiras recentes dos idiotas da família.
Estavam cavando a própria cova!
Na noite anterior, por causa deles, Feng Yang desistira de proteger a família; declarara, sem meias palavras, que não mais teria vínculo algum com os Feng. Contudo, após uma noite de sono, a raiva arrefecera — mas, ao amanhecer, a família voltava a importuná-lo.
A manhã escoou sem maiores sobressaltos. Logo após o almoço, a porta do escritório foi novamente aberta e entrou um homem de meia-idade, usando properly óculos, sorridente.
— Diretor!
Ao vê-lo, Zhang Yu levantou-se de pronto, apressando-se em saudá-lo.
O homem não respondeu, deixando o sorriso de Zhang Yu congelado no rosto.
— Feng Yang — aproximando-se de Feng Yang, o homem falou, um brilho enigmático cruzando seus olhos.
— Diretor — respondeu Feng Yang. Em teoria, ingressara na emissora por influência de Feng Tianwen, o que deveria lhe render um certo respeito, mas, na prática, dois ali não o suportavam: Zhang Yu e o próprio diretor, Liu Shijun.
Liu Shijun era o chefe do setor e, portanto, superior imediato de Feng Yang — o que já dava indícios de que sua visita não traria bons prenúncios.
— Bem, Feng... Preciso lhe falar de uma situação — começou Liu Shijun.
— Estes dias, vieram da chefia investigar a lotação de pessoal da emissora, especialmente quem entrou por canais especiais. E, veja só, você foi o primeiro da lista. Ora, você é do meu setor, defendi você como pude, mas a decisão veio de cima e, infelizmente, nada pude fazer — disse, esfregando as mãos, em um fingido ar de impotência.
Patranha!
Feng Yang riu friamente por dentro. Liu Shijun, ao saber da morte de Feng Tianwen, logo tramou para prejudicá-lo. Essa história de investigação contratual era apenas desculpa; todos sabiam que havia vários “apadrinhados” anualmente, e cutucar esse vespeiro era se indispor com muita gente.
Quem, em sã consciência, iria buscar encrenca por tão pouco?
— Mas não se preocupe, Feng. Eu, Liu, não permitirei injustiças. Consegui para você uma oportunidade: se cumprir essa tarefa, garanto seu lugar na emissora!
Feng Yang limitou-se a um sorriso frio, sem responder. Liu Shijun, um tanto constrangido, prosseguiu:
— Ouvi dizer que An Hongdou está em Jiangzhou nestes dias. Quero que se prepare para tentar trazê-la até a nossa emissora de Jiangbei para um programa especial. Se conseguir, alavancaremos nossa audiência e eu, claro, poderei interceder por você.
— Jovem, dedique-se. Não desaponte minha boa vontade — disse Liu Shijun lentamente ao sair, regozijando-se intimamente.
— Haha, tem gente que finalmente vai rodar! — exclamou Zhang Yu, malicioso, assim que Liu Shijun saiu. Olhou para Feng Yang com sopro de escárnio.
— Tsc, tsc... An Hongdou, hein? Esforce-se, jovem!
— Zhang Yu, será que pode calar-se por um instante? — Ning Jing perdeu a paciência, apontando-lhe o dedo em riste.
— Feng Yang, você fez algo para irritar o diretor Liu? Por que te deu logo essa missão impossível? — indagou, preocupada, Song Xue, uma colega mais velha. Conseguir uma entrevista com An Hongdou era tarefa para titãs, ainda mais sem que Liu Shijun mencionasse qualquer verba para isso. E, mesmo que houvesse orçamento, trazer An Hongdou seria como escalar o céu.
— Essa entrevista é mesmo tão difícil? — Feng Yang franziu o cenho. Para ele, aquele antro de intrigas não era lugar onde desejasse permanecer, mas, para não chamar a atenção de Ling Jing e seus asseclas, precisava manter-se oculto sob aquela identidade.
Enquanto isso, Liu Shijun, recém-retornado ao próprio escritório, apressou-se em telefonar. Assim que a chamada foi atendida, seu rosto se abriu em sorrisos servis, assemelhando-se a um cãozinho bajulador.
— Sim, sim, Jovem Mestre Feng, fique tranquilo! O senhor me conhece, já mandei ele entrevistar a An Hongdou — e sabemos o quão impossível é isso! Assim que ele fracassar, ponho-o na rua sem hesitar!
— Ah, Jovem Mestre, o senhor é generoso demais. Para mim, Liu Shijun, é uma honra servi-lo!
Ao desligar, Liu Shijun estava de excelente humor, cruzou as pernas e ainda assobiou uma canção. Trezentos mil, assim, facilmente embolsados!
Hehe, Feng Yang, que vá embora de uma vez!
— Você disse que ela nunca aceita entrevistas? — perguntou Feng Yang, arregalando os olhos para Ning Jing. Era de fato estranho, pois para uma artista, o modo mais eficaz de ganhar notoriedade era estar na TV, participando de todos os programas possíveis.
— Calma, Feng Yang. Tenho uma colega que é agente no meio artístico. Vou perguntar se ela pode ajudar — disse Ning Jing, apressando-se a pegar o celular.
— Vai ser difícil, Jing — Song Xue abanou a cabeça. An Hongdou, estrela em ascensão, já recusara todos os convites, sem exceção.
— Difícil? Ora, tudo tem exceção. Só porque recusa outras emissoras, não quer dizer que recusará a nossa! — replicou Feng Yang, largando o olhar. Mal terminou de falar, uma voz sarcástica ecoou.
— Que imbecilidade!
Seguindo o som, era Zhang Yu.
Percebendo o olhar de Feng Yang, Zhang Yu nem se incomodou em disfarçar o escárnio.
— Feng Yang, você realmente fala bobagens! Aquela é An Hongdou, não uma qualquer. Dizer que, só porque recusou as outras, pode aceitar a nossa? Quem você pensa que é?
— Nem ser bastardo mais você é. Mesmo se ainda fosse dos Feng, ela não te daria atenção. Cuidado para não ser punido pela própria arrogância!
— E se eu conseguir trazê-la? — Feng Yang semicerrava os olhos.
— Se você conseguir, eu como fezes! — Zhang Yu bufou. An Hongdou, a atriz que jamais cedia a favores, era famosa por isso; no meio, corria o dito de que sua família era abastada, e ela só atuava por prazer.
— Então prepare-se, porque vai comer mesmo! — sorriu Feng Yang com desprezo.
An Hongdou, não é? Dizem que não faz favor a ninguém... Veremos!