Capítulo Seis Olá, eu sou An Hongdou
— R-rub... Rubi... Rubi, irmã Rubi. — No escritório, Song Xue estava claramente desconfortável. Se fossem considerar apenas a idade, ela era mais velha que An Hongdou, mas não havia o que fazer: a imponência da mulher à sua frente era simplesmente esmagadora. Bastava-lhe sentar ali, sorrindo suavemente, para que um sentimento de opressão pairasse no ar.
Mas não era que a presença da mulher fosse agressiva; pelo contrário, havia um sorriso permanente em seus lábios.
— Senhorita Song, por que Feng Yang ainda não chegou? — indagou An Hongdou, a voz aveludada.
Feng Yang? Song Xue se sobressaltou, mas logo voltou a si.
— Irmã Rubi, a senhora... veio para uma entrevista?
Song Xue sentiu-se reanimada, mas ao pronunciar aquelas palavras, percebeu que dissera uma tolice. Com a agenda apertada de An Hongdou, que outro motivo a traria ali senão uma entrevista?
Incrível.
Song Xue exclamou em pensamento. No início, todos creram que o diretor Liu dera a Feng Yang uma missão impossível. Mesmo diante do otimismo dele, todos o consideraram jovem demais, ingênuo. Agora, percebia que ela própria era a imatura. Feng Yang não era um desistente, mas sim alguém seguro de si!
— Entrevista? — Os delicados lábios de An Hongdou se arquearam num sorriso ainda mais gracioso. — Ah, sim, claro, vim para conceder uma entrevista.
...
— Feng Yang, muito bem, hein? Sem alarde, trouxe An Hongdou até aqui. Parece que o jovem senhor da família Feng ainda tem algum prestígio! — brincou Jing Jie.
— Não me zombe, irmã Jing! — murmurou Feng Yang, forçando um sorriso. Ainda nem tivera tempo de se organizar, e An Hongdou já estava ali. O que estava acontecendo?
De qualquer forma, com An Hongdou presente, as coisas estavam indo bem.
Ao chegar ao escritório, com a porta entreaberta, Feng Yang deparou-se com uma cena inusitada. Diante dele, sentada, uma silhueta feminina vestia um elegante qipao azul-celeste, chamando a atenção. Não era outra senão a moça que ele tentara "salvar" dias atrás.
— Não pode ser! — exclamou Feng Yang, surpreso. O que ela fazia ali?
Afinal, só causara um pequeno incidente durante a gravação dela, não era motivo para persegui-lo até ali, não é? E, afinal, sua intenção fora ajudar!
— Ei, senhora, não acha que está exagerando? — disse, escancarando a porta. Embora fosse entrevistar An Hongdou, isso não o impedia de dizer umas verdades antes.
Ao lado, Ning Jing ficou atônita.
— Naquele dia, foi um acaso! Não precisava vir até o trabalho para me denunciar por tão pouco! — Feng Yang insistiu, sentindo-se injustiçado. Sempre pregara a tolerância aos seus pupilos, mas, nos tempos de hoje, poucos são capazes de tal grandeza.
— F-Feng Yang... — murmurou Ning Jing, puxando a manga dele.
— Não tente me convencer, irmã Jing. Hoje preciso esclarecer tudo!
Que tipo de pessoa era ela? Naquele dia, quase fora vítima de um crime, e ele, de boa vontade, tentara ajudar. Mesmo que tenha havido um mal-entendido, sua intenção era nobre. Precisava mesmo se apegar a isso?
— Venha, venha. O gabinete do diretor está ali, o do chefe no terceiro andar. Pode ir reclamar onde quiser! — exclamou, indignado.
Meu Deus...
Ning Jing cobriu os olhos, sem saber o que pensar. O que estava fazendo Feng Yang? Song Xue também estava boquiaberta. Será que o jovem Feng estava delirando de febre?
— Terminou? — perguntou a mulher diante dele, sorrindo ainda mais, ajeitando delicadamente uma mecha de cabelo atrás da orelha, o lábio desenhando um arco encantador.
— Sou An Hongdou.
O quê?
Feng Yang arregalou os olhos. An Hongdou?
Só podia ser brincadeira. Como An Hongdou estaria ali, em seu escritório? Quando a vira, a ideia lhe cruzara a mente, mas logo descartara. Afinal, ela era uma estrela em ascensão; se estivesse ali, já teria ido para a sala VIP.
— Eu disse: sou An Hongdou — repetiu ela, o olhar repleto de ironia.
— Ah, então... — Por um instante, Feng Yang ficou sem palavras, mas, com a experiência adquirida ao longo dos anos, logo recompôs o sorriso. — Sabia! Não é à toa que tem esse porte, só podia ser a irmã Rubi.
— Porte? Mas não foi você que há pouco me chamou de mesquinha? — replicou An Hongdou, com uma voz lânguida.
— Não, não! — apressou-se Feng Yang.
— E também disse que vim aqui para dar parte de você...
— Quem disse isso? Isso é calúnia! — protestou Feng Yang, indignado, como se estivesse pronto para enfrentar quem quer que fosse.
A expressão dos presentes, Song Xue e Ning Jing, era de total perplexidade. Havia algo entre An Hongdou e Feng Yang que não compreendiam...
— Bem, já que está aqui, irmã Rubi, por que não aproveita e faz logo a entrevista? — sugeriu Feng Yang, sorrindo. Se pudesse evitar envolver Chen Yunsheng, melhor; afinal, não sabia quantos olhos estavam atentos aos acontecimentos de Jiangzhou.
Já que An Hongdou viera espontaneamente, era preciso aproveitar a ocasião.
An Hongdou estava ali!
Em um instante, toda a emissora de Jiangbei se agitou. Era um acontecimento de proporções inéditas. Até então, An Hongdou jamais concedera entrevista a qualquer veículo de imprensa; seria a primeira vez!
E uma primeira vez sempre causa um rebuliço inimaginável.
Duas horas voaram. No momento em que retirou os fones de ouvido, An Hongdou lançou um olhar profundo e escuro para Feng Yang, o sorriso insinuando-se nos lábios.
— Irmãozinho, ajudei-lhe tanto hoje. Como pretende me agradecer?
Feng Yang hesitou. Não havia pensado nisso.
— Que tal assim: ouvi dizer que o vinho Qiongxian do Zui Xian Lou é excelente. Que tal me convidar para uma taça?
Diante disso, Feng Yang desatou a fazer caretas.
— Irmã Rubi, está me superestimando! O Zui Xian Lou é o restaurante mais famoso de Jiangbei. Até uma simples tigela de macarrão custa trezentos yuans, imagine então o célebre Qiongxian... É um valor absurdo!
É claro que Feng Yang podia pagar, mas, diante dos outros, era apenas um funcionário modesto, um “diao si” qualquer do escalão mais baixo.
O olhar de An Hongdou brilhou com um tom diferente, e seus lábios se curvaram novamente.
— Ora, ora, só estou brincando. Que tal fazermos assim: um dia, eu mesma o convido para jantar.
— Não pode ser! Vamos combinar assim: quando a irmã Rubi tiver tempo, me ligue. Eu a convidarei. Conheço um pequeno restaurante, não tão renomado quanto o Zui Xian Lou, mas com uma comida deliciosa.
Para ser sincero, Feng Yang ainda não entendia como An Hongdou aceitara conceder-lhe uma entrevista. Mas, de toda forma, ela o ajudara. Deixá-la pagar o jantar seria demais.
Conversando, os dois saíram do estúdio. Mal haviam atravessado a porta, uma voz os surpreendeu:
— Feng Yang! Feng Yang!
A voz vinha acompanhada de passos apressados.
— Zhang Yu? — murmurou Feng Yang.
Antes que pudesse dizer algo, outra pessoa saiu ao encontro, repreendendo em alto e bom som:
— Zhang Yu, não estava de licença? — indagou Ning Jing. No dia anterior, Zhang Yu pedira licença ao diretor Liu Shijun. Por que aparecera assim, de repente?
— Haha, Ning Jing!
Ao vê-la, Zhang Yu sorriu, radiante, ignorando o tom de repreensão.
Logo, seu olhar voltou-se para Feng Yang; o sorriso tornou-se ainda mais largo, e ele correu ao seu encontro.
— Ei, Feng Yang, vim trazer-te uma notícia.
— Feng Yang, prepare-se para comer merda! — gritou Zhang Yu.
— Você enlouqueceu? — resmungou Feng Yang, sem ao menos levantar as pálpebras. Afinal, a aposta era que Zhang Yu comeria excremento, não ele! E mais: acabara de entrevistar An Hongdou!
— Mas você ainda não sabe? — Zhang Yu exibia um sorriso malicioso. Tirara o dia de licença para ir ao hospital, mas, ao receber a notícia, esqueceu a consulta e correu para a emissora. A novidade era importante demais.
— O elenco de "A Verdadeira e a Falsa Herdeira" já deixou Jiangzhou!
— E daí? — respondeu Feng Yang, dando de ombros. O que isso importava?
Idiota!
A resposta de Feng Yang enfureceu Zhang Yu. Que tipo de jornalista era aquele, que sequer fazia o dever de casa antes de entrevistar An Hongdou?
— O novo projeto de An Hongdou é justamente "A Verdadeira e a Falsa Herdeira". Se o elenco já saiu da cidade, como ela poderia estar em Jiangzhou? — Zhang Yu zombou. Antes, temera que o elenco ainda estivesse por ali. Agora, sentia-se vitorioso.
— Prepare-se para comer merda!
— Ah, então é isso — assentiu Feng Yang. — Ninguém vai me apresentar a moça ao meu lado?
Ao lado?
Zhang Yu ficou confuso. Logo, uma mão delicada estendeu-se à sua frente.
— Muito prazer. Sou An Hongdou.