Capítulo Cinco: Dizer Adeus
A voz de Shao Hong trazia um leve tom de choro, e isso fez com que Zhong Di se sentisse igualmente desconfortável.
— Não, daqui em diante não me procure mais para esse tipo de coisa — disse Zhong Di, encerrando a ligação assim que terminou a frase.
Não era a primeira vez; já houvera muitas ocasiões semelhantes. Apenas ele, Shao Hong já lhe pedira emprestado três mil yuans, sem contar o que devia a outros. Precisar de dinheiro para reconciliar-se: Zhong Di jurava nunca ter presenciado algo assim em sua vida, ouvira falar apenas como histórias enganosas. Só quando tal situação surgiu ao seu redor, passou a acreditar de fato.
Ao recordar as bravatas de outrora de Shao Hong, o entusiasmo ardente de então, e contrastá-lo com o estado presente, Zhong Di não pôde evitar um suspiro resignado. Que mundo ingrato, pensou.
Após desligar o telefone, franziu o cenho, mas acabou por abrir o aplicativo de mensagens e transferiu mais mil yuans a Shao Hong, deixando apenas uma curta mensagem: “Última vez.”
Quantas vezes mais ainda ajudaria Shao Hong? Sempre era a última vez, sempre um poço sem fundo, não importava quanto se jogasse, jamais seria o bastante. Xiao Xin era um abismo.
Zhong Di sempre acreditara que os sentimentos deveriam ser uma busca de duas vias; dar-se sozinho só traz feridas cruéis. O desfecho de Shao Hong era previsível.
Também não podia ser demasiadamente incisivo; certas coisas só têm efeito quando compreendidas pelo próprio. Em qualquer situação, quem está envolvido é sempre o mais cego, enquanto o espectador tudo percebe claramente.
Ajudara Shao Hong mais uma vez porque sabia: se não conseguisse dinheiro com ele, Shao Hong pediria humildemente a outros — e Zhong Di não queria vê-lo nessa condição.
Era esse o sentido da amizade: ainda que se soubesse tratar-se de um abismo, ainda assim, lançava-se ali dentro. Até quando? Nem ele mesmo sabia.
Do outro lado da mensagem, Shao Hong apenas respondeu com duas palavras: “Obrigado.”
Preparava-se para guardar o telefone, quando avistou uma mensagem de Wen Ya. Zhong Di abriu-a por instinto — e se ela quisesse explicar algo?
“Quem era aquela mulher com quem você falou hoje? Não esperava que fosse capaz de me trair dessa maneira. A partir de agora, não temos mais nada um com o outro.”
Zhong Di ficou inquieto, não queria que Wen Ya o mal-interpretasse. Mesmo separados, não suportava que ela pensasse tê-la traído.
Apressou-se a digitar “Não é assim” na caixa de mensagens, mas quando tentou enviar, deparou-se com um ponto de exclamação vermelho.
Seria tudo apenas unilateral?
Ela escolhera apenas o desfecho que desejava, não a verdade dos fatos.
Hesitante, Zhong Di abriu o perfil de Wen Ya e a removeu de seu aplicativo de mensagens, apagando também todas as publicações que a mencionavam em seu círculo de amigos.
— Zhong Di, venha comer! — chamou a mãe da sala, sinal de que o jantar estava pronto.
— Já vou! — respondeu ele, enquanto guardava, num saco plástico, as fotos recém-retiradas da parede, levando-as consigo ao sair do quarto.
Na sala, o pai se sentava no sofá, aguardando a refeição. Naquela casa, a sala era também a sala de jantar; adaptavam-na conforme a necessidade, sem regras fixas.
Havia um prato de carne refogada, outro de verduras salteadas, uma sopa de algas com ovos e, para sua alegria, os pasteizinhos fritos de que tanto sentira falta fora de casa. Não percebera antes a carne refogada; devia ter sido preparada depois, pela mãe.
— Mãe, vou jogar fora umas coisas antes.
Bastou um olhar da mãe para que ela soubesse o que ele carregava nas mãos.
— Deixe no fogão, depois eu queimo para você.
Pá!
O pai bateu os hashis na mesa, elevando o tom:
— Di Chunhua, por que se mete nas coisas do menino? — E, ao dizer isso, lançou um olhar à esposa, atento à reação de Zhong Di.
— Que mal há em queimar? Meu filho tem algum defeito? O que Wen Ya tem de especial? Será que sem ela o mundo vai acabar? Vai, deixa no fogão, eu mesma queimo para você! — O tom de Di Chunhua era ainda mais alto que o de Zhong Tian.
Zhong Di dissera aos pais que fora ele quem pedira o término, mas os que mais compreendiam o filho eram os pais; não precisavam de explicações para deduzir o que ocorrera.
Quando estamos desolados, quando sofremos derrotas, ainda que o mundo inteiro nos julgue inúteis ou fracassados, basta aproximar-se da mãe e, aos olhos dela, continuamos sendo os melhores.
No mundo, apenas os pais amam verdadeiramente seus filhos, e o amor deles é sempre altruísta, nunca espera recompensa.
Zhong Di hesitou por um instante, depois assentiu. Era hora de dizer adeus ao passado, para nunca mais olhar para trás.
Quando terminaram a refeição, já eram onze e meia da noite. À mesa, os pais mantiveram-se em silêncio, sem tocar nos assuntos de demissão ou término. Zhong Di sabia: temiam ferir-lhe ainda mais.
Na manhã seguinte, Zhong Di levantou-se cedo; os pais já haviam saído. Por mais que tentasse, nunca conseguia acordar antes deles.
Sobre a mesa, havia comida e um molho de chaves: as da casa e as do campo. Zhong Di guardou-as cuidadosamente.
A mãe trabalhava numa fábrica têxtil; àquela altura da vida, sem cargo algum, a fábrica normalmente não a manteria. Mas sua família era considerada de baixa renda e, sob as políticas de assistência social da grande China, tinham prioridade na contratação.
O pai tinha emprego um pouco melhor, pois sabia operar diversas máquinas agrícolas e sempre arranjava serviço nessa área, o que não era pesado.
Após o café da manhã, Zhong Di montou na velha motoneta elétrica da família e saiu, resfolegando.
Logo ao sair, encontrou a vizinha, a tia Guo, lavando verduras no canal à frente.
Aquele era o canal principal, e, considerando o fluxo da água, ficava a montante. Todas as famílias gostavam de lavar os vegetais ali antes de enxaguá-los em água limpa.
— Tia Guo, preparando os legumes para o almoço?
Ao ver a vizinha, Zhong Di cumprimentou-a educadamente; o mínimo de cortesia era necessário, ou acabaria ouvindo reclamações e até boatos de falta de educação.
— Zhong Di? Você voltou? Não disseram que trabalhava fora? — Tia Guo mostrou surpresa.
— Voltei, vou cuidar do nosso pomar de tâmaras — respondeu Zhong Di, preferindo ser logo direto. Afinal, cedo ou tarde todos saberiam; assim pouparia especulações e, em pouco tempo, toda a vila já teria conhecimento de sua volta, com dezenas de versões da história.
A aldeia Lingjing não era grande: pouco mais de duzentos lares, quase mil pessoas se contados todos. Hoje, os jovens praticamente haviam partido para as grandes cidades, restando apenas os que não tinham outra opção.
— Não disseram que tinha arranjado um bom emprego, ganhando mais de dez mil por mês? Como resolveu voltar? O pomar está abandonado, ainda dá para plantar?
Tia Guo não escondia o espanto diante da decisão de Zhong Di. Hoje em dia, não era comum os jovens voltarem; todos buscavam oportunidades nas grandes cidades, ainda mais sendo ele um dos poucos universitários da aldeia.
— Não é tanto assim, só uns poucos milhares por mês. O pomar, arrumando, não será problema. Bem, tia Guo, preciso ir para o campo, fique à vontade.
Ao ouvir que diziam que ganhava mais de dez mil, Zhong Di só quis sair logo dali; se continuasse a conversa, nem sabia que histórias poderiam surgir.
Ali, qualquer coisa, por menor que fosse, em poucas horas já seria notícia em toda a aldeia.