Seção Cento e Seis: O Sobrinho Ursino Não se Deixa Enganar Facilmente
As palavras de Han Jiang deixaram Yingyue momentaneamente sem reação.
No entanto, Han Jiang prosseguiu, indiferente à sua perplexidade:
— Creio que um verdadeiro homem deve agir com espontaneidade, como ele faz; mas, em seu coração, há sempre uma régua moral. É alguém que se dispõe a ajudar o próximo, sem jamais esperar retribuição; detesta o mal com veemência, mas nunca age por ter sido pessoalmente ofendido.
Embora relutasse em acreditar, Yingyue, no fundo, concordava: que bela descrição era aquela.
Vendo-a acenar levemente com a cabeça, Han Jiang pensou consigo: “Menina, não subestime a pena dos roteiristas de minha vida anterior. Apenas para retratar Li Shishi, criaram oitenta e uma versões.”
Ying, curiosa, perguntou:
— Então, por que elas ajudaram o ministro próximo ao príncipe?
— Porque aquele sujeito mal sabia ler; e, quanto a habilidades marciais, qualquer mulher de barco poderia derrotá-lo sozinha.
— “Mal sabia ler” quanto é, exatamente?
— Apenas três caracteres: seu próprio nome. Sobrenome Li, nome Wei, e o último caractere é... “Qian”—dinheiro!
Yingyue e Ying, que ainda guardavam um resquício de crença, agora descriam por completo. Como poderia, junto ao príncipe, alguém incapaz de ler, sem talento para as armas, ser auxiliar em sua ascensão ao trono? Seria possível?
Sem coragem para contrariar Han Jiang, Yingyue apressou-se em mudar de assunto:
— Shaojun, e a outra dama?
— Shi Cai Nü Ji Yanran. Por que é chamada de “Shi”, de pedra? Porque seu coração é duro como pedra; jamais se apaixonaria por quem quer que fosse. Era, a princípio, princesa do Estado de Yue... não, do Estado de Wei.
Ying quase deixou escapar uma risada, cobrindo a boca e fingindo uma tosse. Da última vez que ouvira esse nome, Han Jiang dissera que era princesa de Yue; agora, mudava para Wei.
Han Jiang fingiu não notar a reação de Ying e continuou:
— Ela convidava os mais notáveis eruditos do mundo, em busca da arte de governar. Nos tempos dos Sete Reinos, as guerras grassavam por toda parte; legalistas, confucionistas, renomados pensadores, era a era das Cem Escolas. O Estado de Wei, porém, deixara de existir. E ela não buscava restaurar Wei, mas sim um método para salvar o mundo.
Yingyue entendeu. Ainda que Han Jiang falasse de supostas cortesãs célebres do Qinhuai, era tudo invenção; aquela princesa de Wei, então, era uma farsa óbvia.
Ela sabia bem: no Estado de Wei, os membros da família real portavam o sobrenome Ji, logo, uma princesa jamais se chamaria Ji.
Mas o raciocínio de Han Jiang fazia sentido.
Uma história isolada pouco significava; mas, quando duas se entrelaçam, tudo se transforma.
O caminho do futuro estava aberto a escolhas: quando seu nome ressoasse por todo o império, sábios a procurariam; poderia ela mesma buscar um eremita oculto, e, após realizar grandes feitos, partir em viagem pelo mundo.
Yingyue levantou-se e fez uma profunda reverência:
— Agradeço as orientações de Vossa Senhoria.
— Sim – disse Han Jiang, recitando casualmente: — “Uma vida, uma era, um só par; por que devem, em dois lugares, desfalecer de saudade? Olham-se de longe, não se tocam; para quem, ó Céu, vem a primavera?”
Logo sentiu-se embaraçado. Aquilo soava demasiadamente triste.
Apresurou-se a dizer:
— Desconsidere o que recitei. Permita-me pensar em outra citação.
Pensar era inútil—sua mente estava vazia. Mesmo o poema anterior, só recordava a primeira metade, pois nas séries de televisão apenas esta era evocada.
Nada lhe vinha à cabeça!
Yingyue tornou a se inclinar:
— Ainda assim, Vossa Senhoria foi apropriada em suas palavras. Despeço-me.
Contendo as lágrimas, Yingyue retirou-se. Mal cruzou a soleira, e as lágrimas lhe inundaram os olhos.
A poesia não era adequada ao momento? Ao contrário—era perfeita.
Ela sentia-se como um único hashi, incapaz até de perceber o próprio sentido de existir neste mundo.
Para quem, ó Céu, vem a primavera?
Quão belo era aquele verso! Han Jiang, certamente por compaixão, dissera que não era apropriado, mas Yingyue sabia: ele o proferira sem pensar, e por isso era sincero.
Ao saber que Yingyue viera, Han Si interrompeu de imediato o que fazia.
Do lado de fora do salão das flores, viu-a, apoiada a um galho de ameixeira, chorando como uma flor sob a chuva, e deteve-se. Após alguns instantes, voltou-se, pronto para partir.
Yingyue, de súbito, virou-se para ele:
— Pai adotivo.
Han Si, que já se retirava, chegou a erguer um pé, mas a palavra “pai” o imobilizou.
Dezessete anos. Dezenove anos atrás.
Naquele ano, Han Si tinha dezesseis anos—ainda jovem e insciente. Mas, desde que teve uma filha, esforçou-se para ser um bom pai; mesmo sem amar os livros, começara a estudá-los, temendo não ser capaz de ensinar-lhe a ler.
Naquele ano, Han Si procurou, pela primeira vez, o tio-avô que tanto temia, sempre frio como gelo.
Embora Han Tuo Zhou, o tio-avô, fosse apenas oito anos mais velho, parecia muito mais, pois vivia a calcular e a temer ser passado para trás.
Han Si buscou aprender com o tio-avô como tornar-se um oficial. Descobriu que, vivendo só do soldo mensal, não poderia comprar tudo o que desejava.
Dezessete anos atrás.
Naquele ano, sua filha mais velha adoeceu e morreu. Han Si, tomado pela dor, incendiou o próprio escritório até reduzi-lo a cinzas; voltou-se ao álcool.
Foi naquele mesmo ano que o tio-avô trouxe para casa uma menina órfã.
Naquele ano, Han Si quis adotá-la como filha, mas ela era filha de um condenado.
Han Si insistiu, mas foi trancafiado no templo ancestral, açoitado até a pele se romper.
Embora fosse apenas pai adotivo, não biológico, Han Si sorria por dentro; levantou a mão, hesitou em acenar, e sem voltar-se, caminhou apressado até onde estava Han Jiang.
Sabia que Han Jiang também saíra do salão das flores; naquele momento, estaria ou no escritório, ou de volta aos aposentos.
Han Jiang encontrava-se no escritório, imerso em suas tarefas.
Quanto à situação de Ruzhou, ainda que não vislumbrasse solução imediata, precisava ao menos estudar atentamente os documentos da família referentes àquela região.
Em seguida, releria os arquivos sobre Lu Yuanbo e Zhai Jian, buscando algo de útil.
Han Si abriu a porta e entrou, com um sorriso radiante no rosto.
Han Jiang riu:
— O que foi, encontrou ouro?
— Tio, só quero lhe fazer uma pergunta.
Han Jiang suspirou longamente:
— Yingyue veio aqui com uma única pergunta, mas me fez pensar muito. Se quer saber, contei-lhe um pouco sobre a vida. Sempre é bom ter um plano, mesmo para decidir se amanhã ao meio-dia comeremos arroz ou massa; não importa se é coisa grande ou pequena, é preciso planejar.
Han Si perguntou:
— Tio, e que plano lhe sugeriu?
Han Jiang aproximou-se:
— Na verdade, não disse muito; apenas expliquei como tornar-se uma mulher notável, célebre por gerações, e conquistar uma vida perfeita.
— Ah... — Han Si, ao ouvir isso, sentiu o coração esfriar. — Tio, sabe que Zhao Ge’er tem mandado gente investigar para onde se mudou a família Yue? Ele quer encontrar o manuscrito do General Wu Mu. Francamente, duvido muito da história.
— Não acredita?
— Não. — Han Si afirmou com convicção. — Embora eu pouco leia e não entenda muito de cargos oficiais, sei que, desde que o imperador reabilitou Yue Wumu há trinta anos, Yue Lin vem reunindo os manuscritos do pai e organizando-os em livros. Morreu no ano passado, mas deixou um filho, que vive ao sul. Todos os manuscritos estão em suas mãos.