Capítulo 6 - Advertência
Desde sempre, Meng Fan nutriu uma aversão profunda por aquele gordo seboso. Antes do apocalipse, o sujeito se valia das suas relações dentro da repartição para dar ordens a torto e a direito, tratando-o, ainda novato, com desdém e arrogância. Ademais, chegara a cortejar Xia Xi, recorrendo diversas vezes a seu cargo para dificultar a vida de Meng Fan em todos os aspectos.
Agora, não satisfeito, passara para o lado do inimigo, Wang Yu, continuando a agir com tirania e tentando apropriar-se de sua cama.
A cama, em si, pouco importava, mas aquela afronta Meng Fan não podia tolerar.
— Seu louco! Você torceu o meu pulso! Tá querendo morrer, seu desgraçado!
Zhou Lin, com o pulso deslocado, gemia e berrava no chão como um porco sendo degolado, atraindo rapidamente a atenção de muitos. Em poucos instantes, uma multidão se aglomerou ao redor.
A primeira a aproximar-se foi Xia Xi. Ao deparar-se com Zhou Lin prostrado ao chão, choramingando de dor, ficou visivelmente aflita.
— Meng Fan, o que você está fazendo? Como pode maltratar um colega assim?
Meng Fan recolheu a mão, de expressão fria e distante, e deu de ombros:
— Não o maltratei. Apenas quero de volta minha cama.
Ainda que, em breve, aquele local viesse a converter-se num campo de cadáveres e a cama perdesse seu sentido, Meng Fan fazia questão de reaver aquilo que lhe pertencia.
— Isso é demais! Ainda que seja como diz, não precisava machucar o rapaz desse modo! — Xia Xi, contrariada, lançou um olhar ao inchaço no pulso de Zhou Lin, manifestando abertamente seu descontentamento.
— Heh.
Meng Fan nada respondeu. Já conhecia de sobra o duplo padrão daquela gente, sobretudo de Xia Xi, que se vangloriava de possuir um “coração de santa”. Bastava avistar um gato ou cão ferido para verter lágrimas por meia hora; discutir com uma mulher assim era trabalho em vão.
— Por que ficou calado? —
Diante do silêncio de Meng Fan, Xia Xi inflamou-se ainda mais, aproximando-se de Ye Xun e indagando com veemência:
— Eu sei, ontem na operação Wang Yu não pôde te salvar e você ficou ressentido. Mas isso já passou! Por que descontar sua mágoa num companheiro?
— …Quanta tolice.
Meng Fan, sem palavras, fitou o semblante colérico de Xia Xi com frieza, balançou a cabeça desapontado e desviou o olhar:
— Não desejo discutir com você. Por favor, afaste-se.
— Você…!
Desta vez, Xia Xi realmente se irritou. Balançou a cabeça, ainda tentando argumentar, quando passos ressoaram pelas escadas. Ao voltar-se, encontrou Wang Yu, que, ouvindo a confusão, retornava acompanhado de seus asseclas.
Imediatamente, cercaram Meng Fan, alguns cerrando os punhos, indignados com sua atitude. Wang Yu, por sua vez, limitou-se a lançar um olhar ao pulso deslocado de Zhou Lin, surpreendendo-se por um instante antes de dirigir-se a Meng Fan com um sorriso ambíguo:
— Meng Fan, por que tanto ímpeto? Estamos todos no mesmo barco. Se houver desavenças, resolva-as abertamente, não precisa retaliar Zhou Lin pelas costas.
A despeito das palavras conciliatórias, o tom ácido era evidente; qualquer um percebia que Wang Yu pretendia usar Meng Fan como exemplo, reafirmando sua autoridade.
Desde que se tornara um desperto, Wang Yu autoproclamara-se líder do grupo, e fora ele mesmo quem ordenara Zhou Lin a tomar posse do leito de Meng Fan. A insubordinação de Meng Fan, somada à humilhação pública de Zhou Lin, era um tapa em seu rosto.
O semblante de Wang Yu escureceu, mas Meng Fan permaneceu impassível, limitando-se a balançar a cabeça:
— Não revidei ninguém pelas sombras. Apenas me cansei dos latidos desse cachorro e o ensinei a calar-se.
Chamar Zhou Lin de “cachorro”, assim, diante de todos, era um escárnio deliberado à panelinha de Wang Yu. Este, claro, entendeu o recado e seu olhar tornou-se ainda mais sombrio.
O que acontecia com Meng Fan? Sempre submisso, nunca ousara retrucar. Agora, diante de todos, desafiava-o — estaria, por ventura, tomado de uma coragem insana?
A máscara de cortesia de Wang Yu quase cedeu; já se preparava para “corrigir” aquele insolente.
Xia Xi, percebendo o perigo, interveio. Embora aborrecida com Meng Fan, não desejava que o conflito escalasse:
— Deixe disso, Wang Yu. Meng Fan está apenas alterado, dê-lhe algum tempo. Tenho certeza de que logo reconhecerá seu erro e se desculpará com Zhou Lin. Não precisa levar adiante.
— Hehe, já que você pede, darei mais uma chance a Meng Fan — respondeu Wang Yu, recompondo-se e assumindo ares magnânimos. — Basta que ele peça desculpas ao Zhou Lin, e o assunto está encerrado.
Pedir desculpas? A mim?
Meng Fan, impassível, assistia à encenação dos dois, mas por dentro apenas zombava.
Ao notar sua hesitação, Xia Xi apressou-se em insistir:
— Meng Fan, por que não se desculpa logo? Precisa mesmo transformar isso numa confusão sem fim? Na verdade, tudo isso…
— Não vejo que eu tenha errado. Pelo contrário, por que, em minha ausência, vocês simplesmente aceitaram que Zhou Lin ocupasse meu lugar?
Sem deixar Xia Xi concluir, Meng Fan cortou-a friamente, fixando Wang Yu com olhar cortante:
— E você, desde quando tem autoridade para decidir a quem pertence meu quarto?
Ao ouvirem tais palavras, todos ficaram atônitos. Xia Xi arregalou os olhos, incrédula.
O que havia dado em Meng Fan? Como ousava desafiar Wang Yu abertamente, ignorando o fato de que, naquele abrigo, sua palavra era lei?
Wang Yu também se perturbou, incapaz de assimilar a súbita transformação de Meng Fan. Após um longo silêncio, pigarreou e, com voz grave, murmurou:
— Então você não aceita?
— Por que haveria de aceitar?
Decidido a pôr fim à hipocrisia, Meng Fan não mais se conteve. Pretendia expor publicamente a verdadeira razão de seu desaparecimento repentino.
Mas o tempo parecia esgotar-se.
No auge da tensão, enquanto os ânimos se acirravam, uma tênue neblina começou a insinuar-se do lado de fora do refeitório, sob o manto noturno.
A névoa, de origem incerta, avançava como um espectro, estendendo-se lenta e inexoravelmente até envolver o céu além da janela de ventilação.
O coração de Meng Fan estremeceu. Imediatamente cessou a discussão, semicerrando os olhos para fitar através da janela a densa bruma que se adensava lá fora. Seu olhar tornou-se sombrio.
Estavam chegando…
Desde o advento do apocalipse, todas as noites a cidade era engolida por aquela névoa sinistra.
Quanto mais densa, maior a probabilidade de surgirem hordas de zumbis.
Naquela noite, a névoa além da janela era ainda mais espessa que de costume, formando uma verdadeira teia branca que cobria todo o edifício.
Ao mesmo tempo, Meng Fan sentiu em seu corpo o estranho bip-bip do sistema evolutivo, como se o alertasse do perigo iminente!
— Pelo visto, as informações do sistema estavam corretas. Com essa névoa tão densa, a chance de uma onda de zumbis é muito maior. Minha primeira provação de sobrevivência está prestes a começar.
Sentindo o alerta ressoar em sua mente, os olhos de Meng Fan brilharam com um fulgor cortante.
No caminho dos fortes, ou se avança, ou se morre.
Desta vez, Meng Fan jamais seria tão fraco quanto antes.