Capítulo 4 — O falso sacerdote
花 Xiaoman assistiu a um verdadeiro espetáculo e, em seu íntimo, sentiu-se mais tranquila: afinal, sua segunda tia não tinha outro defeito além de ser egoísta e gananciosa!
Gente gananciosa, na verdade, é fácil de lidar; enquanto houver interesse, enquanto ela e o avô ainda tiverem utilidade, suas vidas não correriam perigo. Com dinheiro para mantê-la presa à promessa, ela ainda poderia se mostrar prestativa.
Veja só: bastou acenar com uma caderneta de poupança que nem sequer existia para que a mulher se dispusesse a proteger a vida da avó.
No curso de sua vida anterior, o que a carroça devolvera à vila fora apenas a urna com as cinzas da avó; ela, Xiaoman, nem chegou a voltar para casa — foi logo vendida.
Agora, a avó ainda vivia, e ela mesma não se casara com a família Dong, da cidade. O que aconteceria ao regressar à vila, ela já não sabia ao certo. Restava-lhe seguir um passo de cada vez.
…
Mal chegaram à entrada da vila, o espetáculo começou.
Um homem alto, de feições belas e marcantes, vestia uma túnica taoísta azul-escura e portava na cabeça um chapéu típico daqueles dos dramas de época. Empunhava uma espada de madeira de pessegueiro; ao lado, um braseiro, sangue de cão, papéis amarelos, pó de cinábrio — todos os acessórios de um ritual estavam ali.
A carroça foi detida, e o tal "taoísta" começou a girar ao redor de Xiaoman, entoando fórmulas e brandindo sua espada.
Xiaoman cerrou os olhos, sem coragem de assistir ao ridículo; o homem todo compenetrado em seu papel, até mesmo seu porte evocava algo de etéreo. O problema era:
Ela o conhecia!
Vinte anos mais tarde, ele seria o renomado doutor em psicologia conhecido em toda a nação — seu médico responsável, Chu Huai.
Era ele quem, diariamente, deixava flores frescas à beira de sua cama e lhe dizia que a vida era bela, que deveria esquecer as desventuras do passado.
Ele chegou a declarar-lhe que queria desposá-la, acompanhá-la na travessia das sombras rumo a dias luminosos e promissores. Suas promessas deram-lhe coragem para enfrentar a doença.
Uma pessoa assim poderia ser um charlatão disfarçado de monge?
Ou será que a própria ressurreição de Xiaoman teria alterado também o destino de Chu Huai?
Com expressão atônita, Xiaoman acompanhava Chu Huai sacudir o sino, brandir a espada de madeira — parecia mesmo aterrorizada.
Ao lado, Dona Liu, mãe de Liu Yuzhi, explicava a Cao Guozhu:
— Guozhu, quanto mais penso no caso da sua Xiaoman, mais estranho me parece. Por isso, pedi à Cuiying que fosse à cidade buscar um mestre taoísta de verdade, para fazer um ritual e expulsar o mal.
A menina passou uma noite inteira nas montanhas; se algum espírito impuro a tivesse possuído, poderia trazer desgraça a toda a vila.
A avó de Xiaoman acabava de acordar; ao ouvir tais palavras, enfureceu-se. E vendo sua neta, agora tão frágil quanto um gatinho, recuando assustada diante da espada do falso monge, os olhos arregalados de pavor, explodiu:
— Vocês estão falando besteira! — gritou Dona Cao, furiosa. — O médico já disse: isso tudo é superstição retrógrada! Minha neta só ficou desorientada pela febre, falou dormindo! O médico também disse que algumas pessoas até sonambulam — será que estão todas possuídas?
E você, rapaz, jovem, saudável, por que não procura um trabalho de verdade? Vai se passar por monge para enganar os outros? Venha comigo à delegacia, explicar tudo à polícia.
Chu Huai ficou atônito, sem saber como reagir. Jamais imaginara que a primeira a condenar a superstição fosse uma velha senhora. Desde quando as anciãs tinham tamanha consciência?
— Dona Cao, solte! — interveio Liu Cuiying, envolta em uma echarpe de caxemira, saia de couro, saltos altos — bem mais sofisticada do que as moças da vila. Ela correu para interceder, chamando outros para ajudar.
Só então a família Liu percebeu o tumulto e acorreu em socorro. Cao Guozhu foi puxado por Liu Yuzhi, tentando acalmar a mãe:
— Mãe, a senhora já tem idade, não cause confusão. O monge só tem uma espada de madeira, não machuca ninguém; e um pouco de sangue de cão não faz mal. Dizem que quem nada deve, nada teme — se Xiaoman está bem, não há o que temer, ainda pode até afastar o mal.
Diante do apelo do próprio filho, a velha senhora não teve como resistir.
Sem o amparo da avó, Xiaoman foi encurralada num canto.
Chu Huai largou a espada de madeira, pegando em vez disso um relógio de bolso redondo, com arabescos de estrelas e luas, que pôs a balançar diante de Xiaoman.
Pronto, não era mesmo monge — estava tentando hipnotizá-la!
Xiaoman fechou os olhos lentamente, fingindo-se subjugada pelo transe.
Vendo o momento propício, Chu Huai começou a indagá-la:
— De onde você vem?
— Vila Qiaotou.
— Qual seu nome?
— Hua Xiaoman.
— Tem algum apelido?
— Nannan.
…
Uma sequência de perguntas e todas as respostas soavam normais. Restava a principal: segundo a avó Liu, ela teria chamado "mestre".
— O que houve com o mestre? — perguntou Chu Huai.
O coração de Xiaoman vacilou um instante; então, num tom dramático, exclamou:
— Irmão mais velho, o mestre foi levado por um demônio!
…
Todos ficaram estupefatos, olhando ora para a avó Liu, ora para o falso monge. O problema era que o homem era bonito demais; fora das telas de televisão, onde se veria um monge tão formoso?
— Vocês nunca assistiram "Jornada ao Oeste"? — perguntou Chu Huai, resignado, coçando o nariz e voltando-se para os aldeões.
O garoto Gouwa, de dez anos, imitou a voz do irmão Sūnkōng:
— Bajie, seu tolo, pare de dormir, acorde logo!
Xiaoman abriu os olhos, confusa, encarando Chu Huai.
Ao encontrar aqueles olhos grandes, límpidos e inocentes, Chu Huai estacou, surpreso pela familiaridade do olhar — até o apelido era igual ao que conhecia: Nannan!
Naquele instante, Chu Huai abandonou a farsa: arrancou o chapéu ridículo, despiu o manto taoísta, revelando o jaleco branco por baixo.
— Permitam-me apresentar: sou Chu Huai, psicólogo; aqui está meu cartão. Se algum de vocês tiver problemas psicológicos, ou presenciar fenômenos estranhos, pode me procurar. Senhora, já estamos no ano dois mil; devemos confiar na ciência — superstições são nocivas. Dona Cao tem razão: não sou monge, mas médico residente no hospital do condado — aqui está minha identificação. Disfarcei-me apenas para aplicar uma técnica de hipnose, a fim de promover uma lição educativa.
De falso monge a anjo de branco, Chu Huai transformava-se num piscar de olhos! E de fato, deixou os aldeões atônitos.
Seu carisma era tal que até as mulheres mais falantes da vila ficaram sem palavras.
Liu Cuiying, orgulhosa, foi ajudar Chu Huai:
— O Dr. Chu é psicólogo particular do nosso patrão, e embora jovem, é muito conhecido no condado. Já curou muitos casos de suposta possessão.
— Então não é possessão? — insistiu a avó Liu, relutante.
Liu Cuiying argumentou pessoalmente:
— Vovó, o Dr. Chu já explicou. Hoje em dia ninguém acredita mais nessas coisas, todos confiam na ciência. Vamos para casa.
Dona Cao, porém, não se deu por vencida, e começou a discutir com a família Liu, aproveitando para repreender também o filho e a nora.