Capítulo Três: Domínio (1)
A pérola adentrou seu corpo como um sopro de fumaça, não deixando vestígio algum. Zanxing tocou o peito, sentindo uma pequena área sob o coração aquecida, como se estivesse encostada a um fogareiro no inverno, mas sem desconforto. Era, provavelmente, a aprovação do tesouro ao novo dono. Em todos os romances de cultivo, basta uma gota de sangue do protagonista sobre o artefato para que este desperte sua consciência, reconheça o mestre e firme um laço inquebrantável. Então, juntos, rompem os céus e a terra, tal qual o amante mais fiel, abrindo portas para mundos desconhecidos. Esta pérola não era diferente. Todavia, no momento, o mais importante era descobrir como escapar dali. No enredo original, após obter a Pérola Xiao Yuan, o protagonista cultivava no fundo d’água. Afinal, era uma novela antiga, lida anos atrás, e Zanxing já devorara dezenas de outras histórias de cultivo desde então, esquecendo quase toda a trama, para não falar de detalhes. O protagonista, após uma sequência de manobras audazes — "um lampejo de inspiração", "um impulso súbito" — subia três níveis e encontrava a saída. Agora… Zanxing olhou para as próprias mãos: além da pérola ardente no peito, nada parecia diferente. Tentou pressionar a parede da caverna, canalizando energia ao dantian, exclamando "Hã!" e desferindo um golpe. Da parede caíram dois grãos de areia; Zanxing soltou um gemido ao ver sua mão rubra de dor, percebendo que fora ingênua. Os romances mentem; este caminho não é viável. Ergueu-se, permaneceu em silêncio e sentiu, vindo de algum ponto à frente, uma brisa suave. Vento? A única luz vinha do alto, rodeada pelas paredes da caverna; de onde viria o vento? Zanxing hesitou. Talvez, por causa da Pérola Xiao Yuan, o vento tornou-se mais perceptível, formando uma linha tênue, que poderia guiá-la ao seu início.
Levantou-se e, lentamente, seguiu na direção do vento. Não sabia quanto tempo caminhou; quando pensou que a escuridão nunca teria fim, de repente, uma tênue luz surgiu adiante. Diferente da fraca claridade do topo, esta luz era acompanhada pelo som de água. Na parede próxima, abriu-se uma fenda, estreita mas suficiente para passar uma pessoa. Zanxing hesitou, aproximou-se, e não se lançou de imediato; encostou-se à fenda, observando o exterior. Diante de si, um véu infinito de água, com o som de uma cascata caindo e espirrando; ao erguer os olhos, vislumbrou o contorno de montanhas. O coração de Zanxing se alegrou, não importando que a água não penetrasse pela fenda de modo algum científico; só importava uma coisa: do lado de fora era o curso d’água, bastava sair e nadar até a margem. Ao estender cautelosamente a perna, uma sombra negra surgiu abruptamente na superfície tranquila. Não era grande nem pequena, talvez do tamanho de um boi, mas sem forma definida, apenas um amontoado disforme. Parecia a neve do televisor sem sinal, ou uma colônia de formigas negras. Para quem sofre de fobia de aglomerações, a visão poderia ser fatal. Zanxing recolheu a perna com velocidade fulminante, lembrando-se de que, no original, antes de sair, o protagonista enfrentava um último desafio: matar a besta demoníaca. Oculta nas águas, sob a superfície calma, estava o "domínio". Domínio, também chamado de raposa curta, capaz de lançar areia. Quem é atingido sofre de músculos contraídos, dor de cabeça, febre, podendo morrer nos casos graves. O famoso idiomático "lançar areia à sombra" provém daqui. Esta criatura prefere esconder-se na água, nunca revelando sua verdadeira aparência; agora, Zanxing viu claramente, embora parecesse pixelada, sem nada digno de contemplação. E eis o dilema: sendo uma jovem frágil, teria ela de lutar com aquele amontoado pixelado, armada apenas com as próprias mãos? E aquele pixelado era um mago à distância; não é apenas difícil, é quase impossível! Zanxing sentou-se pesadamente no chão, sentindo o futuro nebuloso. Ficar ali não era perigoso, mas morreria de fome, pois não se pode comer terra. Sair implicava enfrentar o pixelado à espreita, lançando areia à sombra. Não era um romance de cultivo, era um romance de sobrevivência! “Calma, Yang Zanxing,” murmurou, inspirando fundo e esforçando-se para recordar a trama. O protagonista Mu Chengxiao, após obter a Pérola Xiao Yuan, começou a cultivar; seu físico era especial, nunca ultrapassando a fundação, mas acumulando energia ao longo dos anos. A pérola rompeu seus grilhões, toda a energia convergiu aos meridianos, elevando-o instantaneamente do início da condensação ao ápice da fundação, a um passo do núcleo dourado. Após a ascensão, matou a besta demoníaca e retornou à margem.
Matar a besta pressupõe suficiente cultivo; deveria ela cultivar ali? Zanxing recordava que, no original, a personagem homônima era uma mera figurante, existindo apenas para destacar a bondade de Liu Yunxin e ajudar Wang Shao e Mu Chengxiao a consolidar inimizades. Sobre a "Senhorita Yang", o texto enfatizava sua beleza arrogante e coração venenoso, mencionando o cultivo de passagem. Não poderia, pois, ser muito talentosa. Mas agora, a "Senhorita Yang" tornara-se Yang Zanxing. Vinda da sociedade moderna, uma trabalhadora exausta, incapaz até de tentar exercícios físicos; sua única experiência esportiva remontava às aulas de tai chi no colégio. Como se cultiva nos romances… Zanxing vasculhou a memória, finalmente sentando-se ereta, imitando o que recordava. Primeiro passo: fechar-se para meditar… era assim, não? Sentou-se de pernas cruzadas, relaxando o corpo; o segundo passo… não sabia, então, como no yoga, fechou os olhos, concentrou-se, esvaziou a mente e regulou a respiração. Respirou fundo, inspirando e expirando— Talvez, desde que atravessara para este mundo, nunca parara; ao relaxar, sentiu o corpo exausto, quase adormecido, mas sua expressão tornou-se serena. Sentiu-se flutuar, leve como pluma. Embora no árido interior da caverna, parecia que água morna fluía através de seu corpo, na temperatura perfeita. E o fluxo d’água respirava, como guelras de peixe, absorvendo o ar entreaberto. De olhos fechados, Zanxing não viu a luz dourada emanando de seu coração, nem os feixes de luz semelhantes a correntes d’água, atraídos pela Pérola Xiao Yuan, atravessando a fenda na rocha e penetrando silenciosamente em seu corpo meditativo. Se houvesse um cultivador ali, discerniria de imediato: refinando a essência e transformando-a em energia, convertendo energia em espírito, aquela jovem de cultivo insignificante, em breve, romperia o limiar dos espíritos, avançando à fundação, a um passo do núcleo dourado.