Capítulo Cinco: Escapando do Perigo (1)

Zanxing (Hiasan Rambut Berbintang) Qianshan Chake 2092kata 2026-03-13 14:34:06

A cortina d’água retomou sua placidez.
Sobre a areia macia do fundo da cova, duas gotas de sangue respingado tingiram o grão alvíssimo, formando pequenos torrões avermelhados.
Zanxing, encostada a uma das extremidades da fenda rochosa, contemplava o ferimento em sua mão, com aparência deveras desarranjada.
O que poderia ser mais humilhante do que sair cheia de confiança, pretendendo realizar grandes feitos, e acabar espancada por uma fera demoníaca?
Levara um tapa em pleno rosto — e doeu, doeu de verdade, no sentido mais literal da palavra.
No romance original, não bastava possuir a Pérola de Xiaoyuan para tornar-se invencível, capaz de desafiar céus e terra? Por que, então, justo com ela, tal poder não se manifestava? Não fosse por ter se enfiado desesperadamente na fenda da rocha no momento crucial — onde o “Domínio” não podia alcançá-la —, já estaria morta.
Mas… não deveria ser assim!
Instantes atrás, ela tocara, sim, o corpo do “Domínio”. Era difícil descrever aquela sensação: como algodão-doce entre o sólido e o etéreo, impregnado de uma viscosidade pegajosa. Seu punho efetivamente despedaçara o corpo do “Domínio”. Porém, assim que aqueles pontos negros, dispersos como formigas, se dissipavam, logo se reuniam novamente numa velocidade impressionante.
Aquele ser não podia ser morto.
Não importava quantas vezes ela o esmurrasse até desintegrá-lo, em nada o afetava. Era desesperador.
Zanxing deixou-se cair, encostada à parede da cova. O romance original jamais descrevera em detalhes essa besta demoníaca; quase toda a narrativa se dedicava ao processo de cultivo do protagonista. Até aquele momento, ela sequer sabia qual era a fraqueza da criatura.
Será que realmente não havia fraqueza?
Zanxing baixou a cabeça, fitando o solo; por ele, o vento vindo da direção da cortina d’água fazia sua sombra tremer levemente.
“Ainda bem que na água não se vê minha sombra”, murmurou Zanxing. A areia lançada pela boca da besta podia ser evitada por uma pessoa, mas garantir que a sombra também escapasse ilesa era quase impossível.
Espere… sombra?
A besta adorava lançar ataques traiçoeiros contra as sombras alheias, mas ela própria… não teria sombra?

Num lampejo, Zanxing girou o corpo, encostou a cabeça à beira da fenda e espiou para fora. Debaixo d’água, o corpo indistinto da besta passava de tempos em tempos.
Antes, seria difícil discernir algo ali, mas talvez graças à Pérola de Xiaoyuan, agora percebia mesmo os menores detalhes. Assim, viu pendendo sob o corpo do “Domínio”, como se fora uma cauda, uma pequena sombra negra.
Essa sombra era diferente do corpo do “Domínio”: mais escura, substancial, ainda que pequena, do tamanho de uma palma. Ao primeiro olhar, passaria despercebida; só com atenção distinguia-se sua diferença.
Seria aquela a sombra do “Domínio”?
Se fosse, a astúcia da besta era notável — o corpo, tão etéreo quanto uma sombra, ao passo que a sombra era sólida como matéria. O “Domínio” gostava de esconder-se na água, lançando ataques velados; se a sombra fosse sua fraqueza, talvez houvesse uma chance de derrotá-lo.
Contudo… Zanxing olhou para a mão ferida. E se, ao tocar a sombra, ela se desfizesse tal qual o corpo de antes, apenas para se recompor logo depois? Além disso, ali não havia nada que servisse de arma.
Não podia simplesmente atirar areia, não é?
A besta jogava areia nela e ela jogaria areia de volta — que sentido havia nisso? Uma briga de crianças do primário?
Ainda assim, a areia da caverna era, pelo menos, melhor do que o lodo negro expelido pelo “Domínio”; ao menos não exalava aquele fedor de vômito, e parecia até limpa e seca. Zanxing agachou-se, pegou um punhado de areia, observou os grãos escorrerem entre os dedos e, de súbito, uma ideia lhe ocorreu.
A fenda estava ali diante dos olhos; a besta, embora imensa, era feita de fragmentos, podia alongar-se, encolher, tornar-se redonda ou achatada — atravessar a fenda não seria impossível. Contudo, o buraco dentro da fenda e a cortina d’água do lado de fora eram dois mundos distintos, separados como águas e azeite. Inicialmente, pensara que a razão fosse a Pérola de Xiaoyuan, mas mesmo no embate com a besta, esta não demonstrara receio algum. Se não era por causa da Pérola, então, dentro dessa cova, só havia esses grãos brancos de areia.
Será que o “Domínio” temia aqueles grãos e por isso não ousava atravessar?
Ela deixou alguns grãos de areia entre os dedos, aproximou a mão da fenda e, aproveitando o momento em que a besta passou adiante, disparou-os em direção àquela pequena sombra negra.
No confronto anterior, Zanxing notara que, agora, seus olhos pareciam enxergar um “Qi” — uma energia — que emanava de seu corpo e, se quisesse, podia controlá-la.
Agora, essa energia, levando consigo os grãos de areia, arremessou-se contra a sombra negra, atingindo-a em cheio no centro.
Um grito áspero e lancinante soou, seguido de violentas convulsões da besta. O jorro d’água agitou-se tanto que quase derrubou Zanxing, que se agachava junto à fenda observando.
Ganhando confiança, ela cuspiu de lado, apanhou um grande punhado de areia branca, compactou-o numa bola, esgueirou-se para fora da fenda e, enquanto a besta se contorcia como em ataque epiléptico, lançou o torrão de areia, como uma bola de neve, bem no centro daquela sombra que parecia, agora, dotada de vida.

Num instante, uma coluna d’água ergueu-se ao céu, e tudo sob a superfície estremeceu violentamente.

À margem do regato, a água corria calma, sem uma onda; no galho, um tordo trinou duas vezes, inclinando a cabeça para a figura agachada à beira do riacho.
A pequena criada estava de cócoras junto à água, as lágrimas caindo em grossos pingos no solo.
Atrás dela, o velho cocheiro suspirou, chamando:
— Hongsu, venha, aqui é perigoso.
— A senhorita ainda não saiu — respondeu Hongsu, os olhos turvos de choro, enxugando as lágrimas com as mãos —; eu não posso ir.
— Sua senhorita não sairá mais. — O cocheiro exibia expressão pesarosa. — Já se passaram seis dias… mesmo que não tenha sido morta pela besta demoníaca, já teria…
Não há como um ser humano sobreviver seis dias debaixo d’água. A carruagem da família Wang já partira; apenas eles, os dois criados da família Yang, permaneciam teimosamente ali. Mas todos sabiam — era impossível.
Hongsu não conteve o pranto, tapando o rosto e chorando ainda mais forte:
— Senhorita… a senhorita se foi!
No auge do soluço, de repente, uma voz familiar soou:
— Com licença, é que…
Hongsu estacou, baixou as mãos e viu, à beira do riacho, a jovem de vestes verdes fitando-a com curiosidade. O vestido estava manchado de grandes borrões de lodo negro, exalando certo odor acre; um raio de sol incidia sobre ela, e seus olhos, tão límpidos quanto antes, brilhavam, enquanto o canto dos lábios se curvava levemente, revelando confusão e, ao mesmo tempo, ternura.
Ela disse:
— Você está sentada tão perto da água… não teme ser levada por um monstro?