Capítulo Cinco: Velas Vermelhas e Cortinas de Seda (Segunda Parte)
As chamas das grandes velas nupciais, adornadas com dragões e fênix em escarlate, dançavam suavemente, como salgueiros ondulando a cintura ao vento. Por trás do cortinado de gaze, as silhuetas de dois personagens sentados frente a frente vacilavam à luz trêmula das velas; o rubor que inundava o aposento tornava impossível distinguir-lhes as feições.
Já um tanto dominada pelo cansaço, a quietude do ambiente incitava Xue Xue, quase instintivamente, a erguer a mão para cobrir a boca num bocejo. Contudo, mal a mão alcançara a metade do trajeto, deparou-se com um contratempo: sua mão, inexplicavelmente, estava atada à de Ji Wu Qing. Suspeitou que a fita vermelha que os unia era curta demais, de modo que um não podia mover-se sem constranger o outro.
— Xue’er, estás cansada? — perguntou o homem à sua frente, a voz tão suave e delicada que Xue Xue quase duvidou ser-lhe este o temperamento natural; cada palavra parecia ressoar num algodão, de tão macia e gentil.
Todavia, se possuísse realmente tal paciência, poderia ele ser considerado um imperador digno?
— Por que outra vez este silêncio? Que tipo de temperança deve cultivar a Xue’er deste rei? — murmurou, em tom queixoso, mas sem qualquer traço de impaciência; antes, soava como um leve amuo.
Xue Xue estava prestes a responder, quando um ruído vindo de seu próprio ventre, um discreto “gulu”, interrompeu-lhe os pensamentos.
Logo depois, ouviu a risada contida de Ji Wu Qing, um murmúrio satisfeito e divertido.
— Foi indelicadeza minha, Majestade — disse ela, embora seu semblante mantivesse-se sereno, desprovido de qualquer embaraço. Afinal, sentir fome era da natureza humana, nada havia de que se envergonhar.
Em sua vida anterior, mesmo órfã e desprovida de afeto ou amizade, jamais chegara a experimentar a verdadeira fome. Além disso, o vinho que bebera há pouco só aguçara ainda mais o apetite, e o corpo frágil que agora ocupava mal podia tolerar a privação de uma ou duas refeições.
— Tua saúde já é débil. Por que insistes em forçar-te? — Ji Wu Qing respondeu num tom morno, mas onde se insinuava uma leve censura.
Xue Xue ficou um momento suspensa, surpreendida pela intimidade de suas palavras, como se não fossem dois estranhos que mal se conheciam há pouco mais de um mês, mas sim velhos companheiros. Enquanto ponderava, uma delicada fragrância de doces chegou-lhe ao nariz — seria...?
Num sopro de brisa, o véu que cobria sua cabeça foi sutilmente erguido e, pousando levemente sobre o edredom escarlate, revelou o intrincado bordado que adornava a peça. E, por fim, a beleza de Xue Xue, até então apenas insinuada sob o tecido diáfano, mostrou-se plenamente.
Sobrancelhas delineadas com leveza, pele de porcelana matizada por um pálido rubor, lábios tingidos de escarlate delicado. A simplicidade da maquiagem realçava-lhe os traços, como um último traço de mestre numa pintura sublime, dando vida ao dragão e às penas da fênix.
— Come antes alguma coisa. Ainda falta muito para o desjejum. — Um doce foi-lhe oferecido aos lábios; era seu favorito, uma massa de flor de pêssego.
Aquela solicitude inesperada surpreendeu Xue Xue, mas, ao mesmo tempo, pareceu-lhe natural. Afinal, a máscara de Ji Wu Qing não era a própria personificação da gentileza? Gentileza, porém, é espada de dois gumes: serve tanto aos amigos quanto aos adversários.
A brisa noturna agitava as longas faixas vermelhas que pendiam pelo palácio, dançando ao vento como silhuetas de fadas etéreas, graciosas e inatingíveis. O dormitório permanecia fechado; criadas e guardas postavam-se à distância junto ao portão do Palácio Anxue, imerso em absoluto silêncio. À beira do lago no pavilhão, as lótus curvavam as cabeças adormecidas sob o manto da noite.
Entretanto, há sempre quem se entristeça em noites assim.
No interior dos véus carmesins, ambos jaziam lado a lado, vestidos e sobre as cobertas, sem se abrigarem nelas. Estavam tão próximos que, entre eles, não havia senão um palmo de distância; e, sob tal proximidade, o leito amplo tornava-se ainda mais vasto. As túnicas luxuosas de ambos se espalhavam, misturando o negro e o vermelho num emaranhado de opulência.
Xue Xue dormia inquieta; ou melhor, sequer conseguia adormecer. O bafo cálido de Ji Wu Qing tocava-lhe de leve o rosto, reconfortante como ele próprio — e, paradoxalmente, era esse calor que a perturbava. Acostumada a dormir sozinha, a presença repentina de outro corpo era um incômodo, próprio de quem ainda não vencera o período de transição. Além disso, a curta fita vermelha que os unia só reforçava sua antipatia pelos costumes matrimoniais antigos.
Tão curta era, que, porventura, teriam de passar toda a noite imobilizados assim.
— Deitar-se ao lado deste rei é algo que muitos implorariam em vão, e tu, Xue’er, mostras tamanho desagrado? —
A luz da vela rubra tremulava sobre o dossel; Ji Wu Qing, de costas para a chama, tinha o rosto ainda mais indecifrável. Mas sua voz soava cristalina, e nela se percebia, clara como a água, um leve tom de mágoa.
— Majestade, não é minha intenção ofender-vos — replicou Xue Xue, olhos cerrados, o rosto perdido na sombra projetada por Ji Wu Qing, envolta em profunda escuridão.
— Hipócrita! Este rei aprecia mulheres como tu: de coração tão límpido quanto cristal. — Ji Wu Qing mantinha os olhos abertos, e, mesmo na penumbra, seu olhar fulgia com intensidade.
Os olhos dele eram longos, não de uma beleza delicada como olhos de fênix, mas afiados, como brasas ocultas sob o crepúsculo.
Como deveria ela responder a tal afirmação? Poderia acaso confessar, sem rodeios, que não gostava de homens como ele, cuja profundidade de alma era desconcertante? Ou agradecer, ainda que falsamente, o favor concedido por um soberano à sua concubina?
Nenhuma dessas respostas lhe era possível.
— Coração límpido? Não seria modéstia minha, Majestade, afirmar que isto é apenas vossa ilusão. Para alguém privado da visão, nada há mais temível que a escuridão, e nada mais desejável que a luz. Pareço alguém sem desejos nem ambições, mas tão somente porque sei, no fundo, que o que desejo jamais será realidade. Assim, a falsa imagem que hoje apresento é apenas reflexo dessa resignação; portanto, não sou digna de vossos elogios. —
Sua voz era suave, mas cada palavra soava sólida e irrevogável.
De fato, ninguém jamais saberia o que se passava em seu íntimo. Supunham que riqueza e poder eram tudo o que ela ansiava — assim fora em sua vida anterior, e talvez também nesta.
Ji Wu Qing se mostrou ligeiramente surpreso, mas logo sorriu, em silêncio.
— A vida é breve; raramente se obtém o que se deseja, e por vezes o indesejado nos é imposto. Se tudo seguisse a vontade do coração, não estaríamos aqui, tu e eu. Xue’er, se nem budas e imortais conseguem extinguir suas paixões, como poderia um simples mortal sê-lo? Não há que se envergonhar do desejo, pois é inerente ao ser humano. E tu, Xue’er, não deves menosprezar-te! —
Sim, um pensamento, por menor que seja, já é parte do desejo. Quem, afinal, pode dizer-se livre de anseios?
Desta vez, Xue Xue admirou-se; ouvir tais palavras da boca de Ji Wu Qing era, de certo modo, insólito. Mais parecia um monge, e não um monarca.
— Não imaginei que Vossa Majestade tivesse tal clareza de pensamento — murmurou ela, desenhando um leve sorriso nos lábios.
— Xiu... — Ji Wu Qing, de súbito, inclinou-se até ela, pressionando-lhe suavemente os lábios com o indicador. O gesto foi tão repentino que Xue Xue ficou momentaneamente atordoada. No instante seguinte, escutou alguns murmúrios vindos do quarto silencioso.
— Hmph! Disseram que eu não podia procurar minha mãe, mas eu mesma posso vir até aqui! — A voz era pueril e adorável, com um quê de orgulho.
………… Palavras da autora …………
Hoje teremos uma atualização extra. Obrigada a todos, queridos leitores, por seu afeto e apoio.