Capítulo Dois Três Socos para Matar Zhen Guanxi?
Capítulo Dois
Três socos para matar Zhen Guanxi?
"Saúdo o nobre senhor!" O recém-chegado guarda da patrulha adiantou-se e saudou Zheng Zhi com respeito.
"Não precisa de formalidades. Doravante, caso haja qualquer problema nas ruas, venha procurar-me sem hesitar", respondeu Zheng Zhi, o coração tomado de surpresa, mas por ora apenas lidando com a situação.
"Senhor, ainda temos outras tarefas a cumprir. Levarei este Zhang Song para continuarmos nossa ronda. O senhor pode continuar com seus afazeres", disse Lei Da, concluindo as apresentações antes de retomar o trabalho.
"Então, vemo-nos à noite", retrucou Zheng Zhi, ansioso apenas por se livrar de mais conversas, temendo inadvertidamente revelar-se.
Observando os dois se afastarem, Zheng Zhi já compreendia sua nova identidade. Não era estranho ao universo de "A Margem da Água". Nunca lera muito o romance, mas assistira a todas as versões televisivas, mesmo que fossem apenas adaptações e histórias inventadas por outros. Jamais imaginara, porém, que um dia viria parar no mundo de "A Margem da Água".
Zheng Zhi fora, originalmente, um jovem comum de uma família de Hubei, na China moderna. Alistara-se no exército aos dezessete anos, primeiro como soldado comum das forças terrestres, depois participando da seleção para as tropas especiais. Destacando-se em todos os quesitos, ingressou com sucesso na unidade de elite Lobo Dente-de-Sabre.
Mais tarde, após uma seleção secreta nas forças especiais, Zheng Zhi foi admitido em uma organização secreta vinculada ao Ministério da Segurança do Estado. Ali, tornou-se discípulo de um mestre de artes marciais enviado pelo governo, aprendendo toda a tradição do kung fu chinês, com maestria especial no Bājíquán, levado à perfeição.
Realizou inúmeras missões secretas para o Estado, sendo a última delas uma investigação no Paquistão sobre as fontes de dinheiro sujo de um grupo terrorista do Turquestão Oriental. Cercado por dezenas de assassinos, matou mais de vinte, mas, em desvantagem, foi alvejado várias vezes.
Quando tornou a despertar, encontrou-se nesta nova circunstância.
O enredo de "A Margem da Água" situa-se aproximadamente no final da dinastia Song do Norte, tempos de guerras e caos, o que inquietava Zheng Zhi.
De súbito, uma ideia alarmante ocorreu-lhe: "O caso em que Lu Zhishen mata Zhen Guanxi com três socos... É justamente este Lu Zhishen que me mata!" Quem era Lu Zhishen? Segundo o romance, era o mesmo Lu Da, que mais tarde ganharia o nome de Monge das Flores, Lu Zhishen, um dos mais temidos entre todos os heróis de "A Margem da Água".
Ao recordar-se disto, Zheng Zhi já não conseguia manter-se tranquilo. O dono original deste corpo, ao que parecia, enganara uma mulher de sobrenome Jin, tomando-lhe o corpo com um falso contrato de três mil guan, e depois a esposa de Zhen Guanxi expulsara-a de casa.
Zhen Guanxi ainda exigia que a senhora Jin lhe pagasse os tais três mil guan, jamais entregues, forçando-a a cantar para saldar a dívida na casa de vinhos. Zheng Zhi pensou cuidadosamente — parecia ser mesmo assim. Restava saber se Zhen Guanxi já cometera tal ato.
Lembrou-se, então, de que, logo pela manhã, um rapaz lhe perguntara se deveria ir cobrar a dívida na casa de vinhos dos Pan, mencionando o tal sobrenome Jin. Agora estava claro que o fato já ocorrera. Zheng Zhi alarmou-se: não podia ser que, recém-chegado a este mundo, já estivesse prestes a ser morto.
Imediatamente, dirigiu-se ao rapaz que o acompanhara: "Corra até minha casa e traga algum dinheiro."
"O senhor disse...?" O rapaz, Li Er, estava distraído com as tarefas do açougue e não ouvira direito.
"Estou dizendo para você trazer dinheiro de casa, e depressa", repetiu Zheng Zhi.
"Quanto devo trazer?", perguntou Li Er, obediente e solícito.
"Traga tudo o que houver", respondeu Zheng Zhi, pensando antes de tudo em salvar a própria vida, sentindo-se moralmente em dívida pelos crimes do antigo dono deste corpo.
"E como devo explicar isso à senhora?", quis saber Li Er.
"Ah... Diga apenas que tenho negócios urgentes a tratar com as autoridades", improvisou Zheng Zhi, lembrando-se de Lei Da e achando o motivo plausível.
"Muito bem, já vou", disse Li Er, largando a faca de cortar carne, limpando as mãos e saindo apressado.
"Corra!", exclamou Zheng Zhi, ansioso, vendo o rapaz afastar-se, murmurando esperançoso para si mesmo que ainda desse tempo.
Pouco depois, Li Er retornou, trazendo um embrulho de tecido que, pelo peso, não era pequeno.
Zheng Zhi agarrou o embrulho, sentindo o peso reconfortante, e ordenou: "Leve-me até esta casa de vinhos dos Pan."
Li Er, perplexo, não entendeu por que o senhor queria ir à famosa casa de vinhos da cidade, mas não questionou e foi à frente, guiando o caminho.
Após uma corrida extenuante, Li Er, ofegante, reduziu o ritmo, mas Zheng Zhi, aflito, apressava-o: "Mais rápido!"
Sem alternativa, Li Er forçou o passo.
Logo avistaram uma construção de dois andares com os grandes caracteres: "Casa de Vinhos dos Pan".
À porta, Zheng Zhi instruiu: "Espere aqui."
Entrou sozinho. Logo um atendente aproximou-se.
"Nobre senhor, veio cobrar a dívida?" O atendente fora instruído por Zhen Guanxi para vigiar a senhora Jin e sua filha, tendo recebido uma gratificação por isso.
"Onde estão?", perguntou Zheng Zhi com secura e urgência.
"A família Jin está lá em cima. Parece que o senhor Lu, o inspetor, chegou e os chamou. Que tal esperar um pouco? Quando ele terminar de ouvir a canção e lhes der uma recompensa, pode cobrar depois", sugeriu o atendente, ciente de que a família Jin pouco lucrara naquele dia.
Zheng Zhi sabia perfeitamente que Lu Zhishen não os chamara para ouvir música, e que, se esperasse, sua própria vida corria perigo.
Ignorando o atendente, achou a escada e, em poucos passos, subiu ao segundo andar.
Lá, viu um velho e uma jovem chorando num canto, enquanto à mesa estavam sentados três homens: ao centro, um jovem robusto; à esquerda, um homem forte de barba preta; à direita, um sujeito mais corpulento.
Bastou um olhar para Zheng Zhi perceber quem eram: na cabeceira, Shi Jin, o Dragão das Nove Tatuagens; à esquerda, Lu Da, o próprio Lu Zhishen; à direita, Li Zhong, o Matador de Tigres.
Shi Jin ali viera buscar refúgio junto ao mestre Wang Jin, e Li Zhong fora seu primeiro instrutor em artes marciais. Lu Da era inspetor sob as ordens do senhor Zhong Jinglüe, temporariamente destacado ao serviço do jovem comandante.
Lu Da e os demais acabavam de ouvir as queixas da família Jin e estavam furiosos. Ao ver Zheng Zhi subir, Lu Da logo reconheceu Zhen Guanxi, fornecedor regular de carne à mansão do comandante.
"Falávamos do patife e eis que chega!", exclamou Lu Da, levantando-se de imediato e investindo contra Zheng Zhi.
Zheng Zhi sabia que chegara tarde. O peito apertado, tentava encontrar uma desculpa plausível, quando viu Lu Da avançando decidido.
"Maldito insolente! Usas o nome de Zhen Guanxi à sombra de terceiros? Hoje te mostrarei a força de Lu Da!", bradou Lu Da, já ao alcance, desferindo um soco destinado a dar-lhe uma lição e aliviar a ira que lhe fervia no peito.
Enquanto Zheng Zhi buscava uma forma de se livrar da culpa, viu-se diante do punho de Lu Da, do tamanho de uma panela.
Se fosse o antigo Zhen Guanxi, por mais que fosse corpulento, não passava de um açougueiro sem arte marcial alguma — não teria a menor chance diante de Lu Da, mesmo armado com a faca de abate, sendo morto por três socos.
Mas Zheng Zhi era diferente. Com mais de uma década de experiência militar e mestria inigualável no Bājíquán, respondeu com precisão: recuou rapidamente, atirou o embrulho ao chão, esquivou a cabeça e evitou o golpe de Lu Da.
"Atreves-te a esquivar?", rugiu Lu Da, ainda mais enfurecido, desferindo dois socos ainda mais poderosos.
Zheng Zhi, agora com as mãos livres, ergueu-as para bloquear.
Um estrondo seco ecoou; Zheng Zhi recuou dois passos até a beira da escada, mas conteve o ímpeto do golpe de Lu Da.
Lu Da, tomado de fúria, não se conteve: dois golpes falhados, preparou-se para atacar de novo.
Zheng Zhi, sem mais como recuar, sabia que outro golpe o faria despencar escada abaixo. Sem hesitar, tomou a iniciativa, lançando um "pào chuí" — o golpe canhão, essência do Bājíquán.
Lu Da, prestes a atacar, viu Zheng Zhi avançar, o movimento rápido como um raio, ameaçando atingi-lo de surpresa.
Experiente, Lu Da ergueu o braço para bloquear.
Novo estrondo ressoou; Lu Da recuou dois passos, só então recuperando o equilíbrio.
Jamais imaginara que Zhen Guanxi, a quem bem conhecia, soubesse artes marciais. Na rua, brigas com malandros eram comuns, pois Zhen Guanxi tinha seus capangas. Mas jamais vira, nem ouvira falar, de um golpe como aquele — nem mesmo o modo de gerar força lhe era familiar.