Capítulo Três: Capitão, permita-me explicar
Capítulo 3 — Ouça-me, Capitão Lu
— Capitão Lu, permita-me explicar! — exclamou Zheng Zhi, aproveitando o breve instante em que ambos se afastaram.
— Que mais há para explicar, seu patife? Hoje não veio senão cobrar dívidas, veja se aguenta! — Lu Da, tendo recuado dois passos após o golpe de Zheng Zhi, sentiu-se humilhado e desejou ainda mais castigá-lo.
Zheng Zhi, ao executar aquele movimento, percebeu que o corpo que habitava não possuía a mínima base em artes marciais; músculos e tendões, rígidos e intocados, fizeram-no praguejar em silêncio. Mas os punhos de Lu Da já vinham em sua direção, com força e velocidade redobradas. E quem era Lu Da? Nada menos que o futuro herói capaz de arrancar salgueiros pelas raízes — sua força era notória.
Por sorte, embora seu novo corpo não colaborasse, Zheng Zhi trazia consigo a experiência de dez anos de prática das artes marciais tradicionais. Agachou-se para evitar o soco de Lu Da e, com uma perna longa, desferiu um rápido golpe rasteiro, varrendo o chão com velocidade impressionante.
Tal ataque era precisamente o "sweeping kick" do Bājíquán, mas Zheng Zhi maldizia sua sorte: os tendões e ligamentos, despreparados, protestaram com dor lancinante na virilha ao executar o movimento. O golpe saiu, mas a dor foi o preço.
Lu Da, vendo o chute rasante, saltou para trás e escapou, admirado em segredo: "O açougueiro Zheng tem habilidades muito superiores ao que eu supunha. Como pode haver alguém tão hábil em Weizhou sem jamais ter ouvido falar?"
Zheng Zhi sabia que o combate não podia prosseguir. Aproveitando a brecha, reuniu forças e correu a passos largos para o lado, decidido a não prolongar a luta. Afinal, sentia que este corpo não aguentaria muitos embates com Lu Da; talvez, ao fim de três socos, fosse morto ali mesmo.
Lu Da, no entanto, girou para persegui-lo, e Zheng Zhi, ágil, contornou-o, indo parar junto à mesa onde antes os três bebiam.
Shi Jin e Li Zhong já estavam de pé, e, ao verem Zheng Zhi aproximar-se, apressaram-se em barrar-lhe o caminho, dispostos a ajudar Lu Da a detê-lo.
— Nobres senhores, detenham o Capitão Lu! Vejam as pratas no chão, tudo não passa de um mal-entendido! — bradou Zheng Zhi.
Zheng Zhi, ao chegar, trazia consigo um embrulho cheio de prata; ao ser atacado por Lu Da, largara-o no chão, espalhando as moedas ao redor. Até então, todos estavam absortos no combate e não haviam notado, mas agora, ao ouvirem-no, o brilho prateado das moedas reluzia e chamava a atenção.
Shi Jin, embora jovem e de espírito livre, era inteligente. Ao perceber a prataria espalhada, entendeu a situação; ao invés de barrar Zheng Zhi, avançou para impedir Lu Da.
— Capitão, ouça o açougueiro Zheng, talvez haja mesmo algo por trás disso tudo — disse Shi Jin.
— Que história é essa? Este patife não tem boa fama em Weizhou. Aproveita-se da relação com o jovem Song para agir com arrogância; já não o suporto há tempos — respondeu Lu Da, já contido por Shi Jin.
— Capitão, reconheço meus pecados e carrego-os na consciência, mas também sei que é preciso compensar. Estas centenas de taéis não são pouca coisa. Antes, não tive alternativa; em casa, minha esposa é de gênio forte, só pude fazer de conta para acalmá-la — Zheng Zhi falava rápido, ansioso por encerrar a pendência. Quanto ao valor exato, nem ele sabia; apenas exagerou, pois, em tais situações, melhor pecar pelo excesso.
— Vejo que ainda lhe resta consciência. Vá recolher a prata, então! — Lu Da, homem de coração aberto, era dado a acreditar facilmente nas palavras alheias. Ao ver toda aquela prata no chão, convenceu-se de que Zheng Zhi falava a verdade — afinal, eram centenas de taéis, quantia suficiente para comprar uma bela propriedade em Weizhou.
Zheng Zhi suspirou de alívio. No primeiro dia de sua travessia, quase fora morto — que humilhação para um viajante entre mundos! Resignado, voltou-se para juntar as moedas espalhadas.
Ao passar ao lado de Lu Da, este arregalou os olhos e murmurou:
— Você merece umas boas palmadas!
Zheng Zhi evitou olhá-lo, apressou o passo, ajoelhou-se e recolheu as moedas, embrulhando-as novamente antes de as entregar ao velho Jin.
O velho Jin, nunca tendo visto tanto dinheiro na vida, recuou assustado:
— É demais, é demais, senhor... Basta-me algum trocado para a viagem.
O velho Jin era, de fato, um homem simples e honesto. Zheng Zhi, ao lhe oferecer tamanha quantia, mais o assustou que qualquer coisa; jamais ousaria aceitar.
— Aceite, por favor. Ultimamente vocês têm sofrido muito. Recebendo este dinheiro, minha consciência ficará mais leve — disse Zheng Zhi, quitando a dívida do antigo dono do corpo, sem saber ao certo quanto valia aquele embrulho, nem o real poder de compra da prata.
A esposa de Zhen Guanxi, temendo a intervenção das autoridades, separara quase toda a prata da casa, restando apenas o necessário para viver. O montante ultrapassava mil taéis — o suficiente para sustentar uma família abastada por mais de uma década.
Ainda assim, o velho Jin hesitava, recusando o embrulho mesmo tendo a filha desonrada pelo açougueiro. Era a natureza resignada do povo antigo — uma honestidade e tolerância que não se encontra nos tempos modernos.
Lu Da, vendo o velho Jin temeroso, tomou o embrulho das mãos de Zheng Zhi e o enfiou à força no colo do ancião.
— Velho Jin, eu garanto. Fique com ele! — declarou Lu Da, com sua característica generosidade.
O velho Jin, com o pacote nos braços, não ousava dizer palavra; temia também irritar o Capitão Lu. Ficou, junto de sua filha Jin Cuilian, de pé a um canto, pensando em devolver o dinheiro a Zheng Zhi, aceitando apenas o necessário para a viagem.
Feito isso, Lu Da voltou à mesa e disse:
— Açougueiro Zheng, veja só! Homem grande e forte, com habilidades nada desprezíveis, mas dominado pela esposa! Que motivo de riso!
Era verdade que, após alguns lances, Lu Da reconhecera as habilidades de Zheng Zhi. Este, mesmo não muito mais alto que um metro e setenta e oito, destacava-se entre os homens daquele tempo, impondo-se à vista.
— Capitão, não zombe de mim. Sou simples açougueiro, mas busco ser um homem de valor. Cometi erros, sim, mas hoje os reparei e minha consciência está tranquila — Zheng Zhi tentava, com suas palavras, limpar o nome do açougueiro, pois agora que tomara seu lugar, não podia carregar a má fama de um grande vilão.
— Hehe... Ao menos tens um pouco de consciência. Venha, sente-se e beba conosco! — disse Lu Da, com seu jeito franco. Ao pesar o embrulho, percebeu que a quantia era muito maior que alguns poucos taéis.
Na verdade, ultrapassava em muito as centenas mencionadas por Zheng Zhi. Lu Da pensou que Zheng Zhi, temendo mexericos que chegassem a sua esposa, preferira omitir o valor exato. Isso só aumentou sua consideração pelo açougueiro, que, ao contrário dos rumores, mostrava-se honesto. Além disso, após a breve luta, reconheceu que Zheng Zhi era um homem de notável habilidade, digno de sua amizade.
Zheng Zhi, aceitando o convite, sentou-se à mesa, defronte a Shi Jin. Viu que as iguarias estavam escassas e chamou o criado.
— O que desejam os senhores? — perguntou o criado, o mesmo que Zheng Zhi encontrara no andar de baixo, e que no romance original receberia dois tapas de Lu Da por não deixar o velho Jin e sua filha partirem.
— Traga-nos vinho e iguarias do melhor, e sirva também àquela mesa vazia! — ordenou Zheng Zhi, desejoso de confraternizar com aqueles homens valentes.
— Pois não, senhores! — respondeu o criado, lançando um olhar curioso ao velho Jin e sua filha, mas sem ousar questionar.
— Velho Jin, leve sua filha e sente-se naquela mesa. Comam e bebam à vontade — disse Zheng Zhi.
O velho Jin, faminto, não recusou e levou a filha para a mesa vazia.
— Açougueiro Zheng, de onde vem tua habilidade? — perguntou Lu Da, mais interessado em artes marciais que em qualquer outra coisa.
— Minha arte marcial é uma variação do Neijiaquan, chamada Bājíquán — começou Zheng Zhi, mas emudeceu, sem saber como prosseguir.
— Ora, que homem arisco! Aprende a lutar e esconde o jogo! — Lu Da irritou-se ao vê-lo hesitante.
— Capitão, não é intenção minha ocultar. Fui ensinado, em minha infância, por um velho mestre; depois nunca mais o vi. Pratiquei muitos anos, mas, ultimamente, tenho me descuidado — improvisou Zheng Zhi.
— Pois então tiveste sorte! Se eu encontrasse tal mestre, haveria de medir forças com ele — respondeu Lu Da, cuja paixão pelas artes sempre o guiara, inclusive em sua futura amizade com Lin Chong.
Nota: Apesar de, historicamente, ouro e prata não serem usados como moeda corrente na dinastia Song, aqui, conforme a tradição de "À Beira d'Água", a prata é tratada como moeda.