Capítulo Quatro: Mal havia atravessado, já ganhara uma concubina
Capítulo Quatro: Mal Atravesso, Já Me Vejo com uma Concubina
Não tardou para que o vinho e os pratos fossem servidos. Após uma breve apresentação de Lu Da, Zheng Zhi também passou a conhecer Shi Jin e Li Zhong. O Dragão de Nove Tatuagens, Shi Jin, viera a Weizhou após se envolver em encrencas em sua terra natal, buscando refúgio junto ao mestre Wang Jin. Já Li Zhong era natural do local, ganhando a vida na cidade vendendo emplastros e pomadas para contusões, acompanhado de alguns discípulos.
— Zheng Tu, tu de fato não és homem de bem, desonraste a pureza alheia e ainda te negas a assumir responsabilidade — Lu Da, após algumas tigelas de vinho, apesar de ter certa estima por este Zhen Guanxi, não deixou de censurá-lo severamente.
— Oficial, minha intenção era mesmo levar a filha dos Jin para casa, mas... — Zheng Zhi, sem de fato compreender a situação, teve de buscar pretextos para responder.
— E pensar que te consideram homem valoroso! Hoje mesmo, deixa as desculpas de lado e leva a filha dos Jin contigo. Um homem não pode se deixar comandar por mulher! — Lu Da, sempre justo e direto, acreditava que esta era a solução mais adequada.
Zheng Zhi, ao ouvir tais palavras, voltou-se para observar Jin Cui Lian. Embora jovem, mostrava-se de traços delicados e belos. Zheng Zhi, que fora solteirão de mais de trinta anos em sua vida passada, não via mal algum em ganhar, além de uma esposa, também uma concubina nesta existência.
— Pois bem, farei como o oficial propõe, mas ignoro se o pai e a filha da família Jin concordam — ponderou Zheng Zhi, antes de responder.
— Por certo que concordam! Andam errantes, sem paradeiro. Ter um amparo, o que pode ser melhor? Leva-os contigo e acomoda-os em tua casa — decidiu Lu Da, sem sequer consultar os interessados, resolvendo por eles.
A conversa dos dois não se deu em voz baixa; por isso, o pai e a filha da família Jin, que jantavam próximos, também ouviram e começaram a cochichar entre si, sem se saber ao certo o que tramavam.
— É isso mesmo, o oficial tem razão. Levá-los para casa é o melhor. Pai e filha, tão frágeis, portando tamanha soma de prata, nestes tempos de salteadores e bandidos, é risco certo — foi o que disse Shi Jin, o Grande Irmão Shi.
Li Zhong, ao lado, apenas assentiu em concordância.
— Assim será, então. Bebamos! — Zheng Zhi, no íntimo, guardava certa apreensão, preocupando-se com o temperamento da esposa que desconhecia. Se acaso fosse uma megera, a situação não seria das mais fáceis.
Zheng Zhi tomou seguidas taças daquele vinho, cujo sabor, de fato, era bastante áspero. Embora límpido, havia nele uma acidez que o distanciava em muito dos destilados refinados do futuro. Era uma diferença abissal.
Os quatro conversavam animadamente, e Zheng Zhi, entre goles, ponderava sobre sua nova condição como Zhen Guanxi. Embora sobrevivesse, os tempos finais da Dinastia Song do Norte não eram nada promissores. Guerras incessantes, rebeliões e bandidagem por toda parte. E dentro de poucos anos, viria ainda o desastre de Jingkang, que reduziria o grande império a um canto recôndito, tornando-se a Song do Sul.
Nestes tempos, preservar a vida era o mais importante. Hoje não era Lu Da que vinha matar; amanhã poderia ser o senhor Zhang a bater-lhe à porta. Em épocas caóticas, a vida humana valia menos que a de um cão.
Pensando nisso, Zheng Zhi começou a arquitetar seus próprios planos:
— Grande Irmão Shi, já tem onde repousar esta noite?
— Irmão, ainda não. Quando findar o banquete, buscarei uma estalagem — respondeu Shi Jin, sem perceber as intenções de Zheng Zhi.
— Sendo assim, por que não se hospeda em minha casa por alguns dias? — convidou Zheng Zhi, desejoso de estreitar laços com Shi Jin, cuja habilidade marcial conhecia.
— Muito agradecido, irmão. Não recusarei tamanha cortesia — Shi Jin, homem de estrada, era de trato franco e sem rodeios.
— Zheng Tu, tua habilidade é notável. Quando tudo se acalmar, que tal medirmos forças um dia destes? — Lu Da, invencível em Weizhou, não perderia a chance de encontrar adversário à altura.
— Oficial, faz anos que não pratico e estou enferrujado. Ao voltar para casa, treinarei alguns dias, então poderemos medir forças — Zheng Zhi sabia bem das próprias limitações e pretendia aproveitar a chance para cuidar do corpo recém-adquirido.
— Excelente! Bebamos mais! — Lu Da regozijava-se por encontrar digno oponente.
Sentados à mesa, três dos quatro se entregavam à conversa animada, enquanto Li Zhong, mais calado, limitava-se a concordar de tempos em tempos.
— Por hoje basta. Acompanharei você e o Grande Irmão Shi de volta — Lu Da, sempre generoso, ofereceu-se para acompanhar Zheng Zhi e Shi Jin, quando na verdade pretendia amparar o pai e a filha da família Jin.
— Perfeito. Garçom, venha trazer a conta! — Zheng Zhi, de fato, sentiu alívio. Enfrentar sozinho uma esposa desconhecida lhe causava ansiedade; com companhia, sentia-se mais seguro.
— Senhor, ao todo, três taéis — o garçom, solícito, mantinha olhos atentos aos nobres clientes do andar de cima e, chamado, logo se apresentou.
— Anote na conta. Pagarei depois — Zheng Zhi, sem um vintém no bolso, lembrou-se de que, no original, Lu Da também deixara a conta pendurada após doar todo o dinheiro à família Jin.
— Muito bem. Só temo que o senhor se esqueça de pagar — respondeu o garçom, descendo logo em seguida.
Assim, os quatro homens, junto do pai e filha da família Jin, seguiram diretamente à residência de Zhen Guanxi. Zheng Zhi ia à frente, esforçando-se para recordar o caminho de casa. Felizmente, os hábitos profissionais de sua vida anterior lhe valeram ajuda, e ainda que ansioso, encontrou o endereço sem dificuldades.
Ao empurrar o portão, deu com a esposa de Zhen Guanxi ocupada no pátio, secando legumes e outros mantimentos ao sol.
— Meu senhor, por que retorna tão cedo? — A esposa, mulher de bom trato, era vizinha da família do açougueiro Zheng no campo e se chamava Xu Jiayi. Estava casada com ele havia menos de um ano.
— Vieram amigos de longe, trouxe-os comigo — Zheng Zhi evitava falar demais, temendo deixar escapar alguma falha.
Ao ver entrar um grupo de homens robustos, seguidos do pai e filha dos Jin, o semblante da senhora Xu anuviou-se. Não lhe faltava razão. No período dos Song do Norte, tomar uma concubina era costume, mas fazê-lo com menos de um ano de casamento era afronta difícil de aceitar. Não era de espantar sua contrariedade.
Com algum constrangimento, Zheng Zhi apresentou seus novos amigos e, ao chegar a sua esposa, limitou-se a dizer que era sua consorte, omitindo até mesmo o sobrenome.
— Senhora, hoje venho até aqui por um motivo: este pai e filha da família Jin são deveras desafortunados, errantes numa terra estranha, sem amparo. Nestes tempos tão conturbados, peço a compreensão de vossa senhoria para que possam ficar, ajudando em tarefas da casa — intercedeu Lu Da, cuja rudeza escondia coração generoso.
— Oficial, vosso coração é bom, mas o dote de três mil guan é alto demais — retrucou a senhora Xu, mulher do campo. Não fosse o marido desejar tomar concubina com menos de um ano de casamento, e ainda pagar fortuna tão alta, não teria se irado a ponto de expulsar a filha dos Jin.
— Esposa, não houve três mil guan, tudo invenção alheia — Zheng Zhi sabia bem da trama: no original, Zhen Guanxi mentiu à família Jin, prometendo três mil guan, firmou o contrato e não pagou, ficando com Jin Cui Lian à força.
Ainda que se apoderasse dela, pai e filha Jin, resignados, aceitaram, por ter afinal algum amparo. Mas acabaram malvistos pela esposa legítima, que os expulsou.
— O senhor fala sério? — Xu parecia ainda desconfiada.
— Falo, falo! — Zheng Zhi apressou-se em confirmar. Mal acabara de atravessar para este mundo, queria antes de tudo garantir a paz do lar.
A senhora Xu silenciou-se, cedendo implicitamente.
— Esposa, este é o Grande Irmão Shi, ficará conosco por alguns dias. Cuide para recebê-lo bem — Zheng Zhi tratou logo de mudar de assunto.
O pai e a filha Jin, ao entrarem, estavam tomados pelo receio, mas ao perceberem a aceitação da senhora da casa, sentiram-se aliviados. Após mais de um ano de andanças e sofrimento, finalmente teriam algum sossego.
Jin Cui Lian, vendo Zheng Zhi dar ordens, mostrou-se prestativa, e, reunindo coragem, disse humildemente:
— Não é preciso preocupar-se, senhora, basta ordenar que eu mesma cuidarei de tudo.
O velho Jin, ao lado, ainda segurava nas mãos a fortuna de mais de mil taéis de prata — soma que salvara a vida do recém-chegado Zheng Zhi, e que, por ironia, agora retornava ao seu ponto de partida.