Capítulo 3: O Início da Jornada no Mundo do Livro
— Mamãe, será que ela morreu?
— Não, não se preocupe, acabei de verificar, ela ainda respira. Continue procurando, sua fedelha! Essa menina sabe mesmo esconder coisas... Onde está o caderninho de poupança?
Ming Yanhong olhou para a menina ardendo de febre sobre a cama, inquieta. Puxou a barra da saia da mãe:
— Mamãe, é melhor examinar ela. E se ela ficar com sequelas, o Escritório dos Jovens Intelectuais não vai querer recebê-la. Mamãe! Eu não quero ir para o campo!
Xing Cuilan, alertada pela filha mais velha, também achou prudente, mas saiu resmungando para buscar remédios na clínica. Depois, lembrando que era preciso pagar, e com os bolsos mais vazios que o rosto limpo, simplesmente foi embora. Se morrer ou sobreviver, que seja o destino daquela fedelha!
Dentro do quarto, Ming Yanhong lembrou que Ming Changhe havia morrido naquele mesmo aposento. Sentiu o ambiente sombrio, passou a mão pelo braço arrepiado e saiu correndo.
O que ela não sabia era que, no instante em que saiu, a menina sobre a cama, vítima de convulsões pela febre alta, morreu.
Um minuto depois, uma alma de outro mundo ocupou seu corpo.
Após um gemido débil, a menina abriu os olhos e encarou a mosquiteira empoeirada. Ming Dai arregalou os olhos.
Droga! Fui enganada!
No momento em que recobrou a consciência, uma avalanche de memórias invadiu-lhe a mente.
Ming Dai compreendeu sua situação.
Ela agora estava em um romance ambientado nos anos 70, "A Doce Esposa Mimada", no papel da prima de uma cunhada insignificante, destinada ao fracasso.
O novo projeto da Agência de Viagens do Mundo Inferior era apenas um pretexto: viagem temporal disfarçada de transmigração literária, ainda em fase experimental.
Ou seja, Ming Dai foi ludibriada para ser o rato de laboratório!
Sabendo que não poderia contactar o Inferno nem retornar por ora, só lhe restava aceitar o destino e tentar sobreviver.
Fechou os olhos, organizando os pensamentos, e ao ver as informações, não pôde deixar de xingar a porta dupla.
Nesta vida, seu nome também era Ming Dai.
Ela exigira nascer em berço de ouro; e de fato, nascera como neta do Comandante Jiang em Pequim.
Mas, pouco após o nascimento, fora abandonada pela própria mãe na estação ferroviária, onde Ming Changhe, um solteirão recém-desmobilizado, a recolhera, criando-a como órfã.
Pediu não passar fome nem trabalhar; isso também se cumpriu. Ming Changhe jamais se casou, cuidando da menina, sem grandes posses, mas nunca deixou faltar comida, nem a obrigou a trabalhos pesados — apenas tarefas caseiras, limpeza e cozinha.
Quanto ao cérebro brilhante, ao despertar, recebeu uma enxurrada de conhecimento, tornando-se virtualmente uma biblioteca ambulante.
Sobre o corpo saudável, ela duvidava; afinal, estava à beira da morte por febre alta.
Pensando no espaço prometido pela porta dupla, Ming Dai apalpou uma pequena pinta vermelha e quente no peito — devia ser ali.
Murmurou: — Entrar.
Logo, o quarto escuro ficou vazio.
No espaço, Ming Dai ainda achava tudo surreal. Realmente entrou desse jeito?
Em sua vida anterior, sempre desejara ter um espaço assim. Assim, poderia viajar sem carregar malas, poupando-se do cansaço de cada viagem.
Empolgada, começou a explorar o espaço só seu.
Por fora, parecia igual ao mundo exterior: uma pequena vila moderna, com uma vasta terra negra à frente, um tanque d’água atrás, e todas as comodidades internas. Muitas decorações eram idênticas ao apartamento de sua vida anterior, dando-lhe a sensação de estar em casa.
Seguindo as lembranças, abriu o depósito do primeiro andar, e ficou boquiaberta.
Aquilo não era um depósito, mas um enorme armazém!
O letreiro indicava tipos, nomes e localização dos bens.
Casacos militares antigos, bacias de cerâmica, chaleiras, lençóis de casamento, tudo abarrotando as prateleiras.
Caixas de malte, balas de leite Da Bai Tu, conservas de frutas; pilhas de farinha refinada e arroz de primeira; até bicicletas, máquinas de costura, rádios, tudo organizado.
Assim, pelo menos não precisava temer morrer de fome nos anos 70!
Tudo preparado pela porta dupla, de bolso próprio, com impressionante completude.
Entrou no outro depósito; ao abrir a porta, foi ofuscada por uma pilha de peixinhos dourados.
Encantada, lançou-se sobre eles: eram o dinheiro que conquistara em sua vida passada!
Saciada a curiosidade, abriu outra caixa — dentro, dez mil yuan deste mundo e uma caixa de cupons nacionais, de todos os tipos.
Este era o pacote de iniciante prometido pela porta dupla. Prático, de fato.
Após uma volta, já cansada, não teve tempo de examinar tudo, correndo ao banheiro.
Dois dias de febre, mais toda aquela agitação — já estava exalando maus odores.
Após o banho, fitou-se no espelho, soltando dois “tsk tsk”.
O corpo era igual ao de antes, só parecia mais baixa e magra que aos catorze da vida anterior.
Piscou diante do espelho; a menina de pele clara e cabelos amarelados piscou de volta, com um ar tão frágil que dava vontade de esmagá-la.
Descobriu que podia ser tão “lótus branca” misturada com “chá verde”. Ao recordar a breve vida da jovem, percebeu que era prematura; apesar do cuidado de Ming Changhe, na escassez daquele tempo, era doente.
Se não fosse o emprego de Ming Changhe na farmácia de um hospital, jamais teria sobrevivido; só o custo com remédios superava o de qualquer família comum.
Ao examinar seu próprio pulso, percebeu que estava tudo bem; a porta dupla cumprira a promessa.
No entanto, esse aspecto frágil era curioso, nada parecido com sua antiga personalidade radiante.
Ao abrir as portas do novo mundo, não resistiu a brincar diante do espelho, alternando expressões e poses: ora uma Xi Shi empunhando um martelo, ora uma Lin Daiyu arrancando salgueiros, divertindo-se sem parar.
Mas o corpo não colaborava; logo, o estômago protestou.
— Glu-glu-glu...
O som nítido da barriga interrompeu suas caretas.
Ágil, vestiu o roupão, jogou as roupas sujas na lavadora e foi à cozinha.
Pegou os ingredientes e preparou para si um ramen farto.
Sugando os fios, exclamou: Que delícia!
Saciada, dormiu um sono profundo. Ao despertar, já era o dia seguinte.
Espreguiçou-se, sentindo as dores desaparecerem.
Saltitou no lugar, nunca tão cheia de energia.
Saiu correndo, deu voltas ao redor da vila; ao terminar, checou o tempo — bateu o recorde da vida passada.
Saúde garantida, uma camada a mais de proteção à felicidade. Agora, só faltava resolver os problemas dos parentes “excelentes” que vieram no pacote.
Durante o café da manhã, Ming Dai teve uma ideia.
Ir ao campo era inevitável; estávamos em 1972, faltavam cinco anos para a primeira seleção universitária. Indo agora, poderia evitar suspeitas sobre mudanças bruscas de personalidade.
Aqui não era como antes, onde nem se sabia quem morava no andar de cima; neste lugar, se alguém come algo hoje, amanhã o pátio inteiro já sabe. Ainda mais sendo Ming Dai criada sob os olhos de todos.
Agora, o país caça espiões; basta uma suspeita para complicar sua vida!
Ela não queria correr riscos.
Ir para o campo. Assim, mesmo se daqui a cinco anos voltar após passar no exame, poderá explicar a mudança de temperamento por ter sido forjada na roça.
Além disso, há a família de parentes “excelentes”, que não se pode eliminar, mas sempre vêm incomodar.
Quanto a trocar de emprego ou mudar de casa, já pensara nisso, mas era complicado: o registro de transferência é rastreável, a família do tio acabaria encontrando-a, era questão de tempo.
E ela tinha o espaço e seus recursos, além de habilidades médicas; não temia sobreviver no campo.
Quanto à família do tio da protagonista, não iria facilitar para eles!
Antes de partir, precisava presenteá-los com um grande “agrado”.