Capítulo 7: A tia mais velha foi levada pelo velho solteirão — os vizinhos repugnantes
Com os pensamentos finalmente apaziguados, Ming Dai sentia-se de excelente humor. Ao passar diante do restaurante estatal, decidiu que antes de partir deveria experimentar a culinária do estabelecimento. Era justamente o início da tarde e o local ainda permanecia vazio.
Os funcionários, com ar arrogante, postavam-se diante do balcão, ignorando os clientes. Ming Dai fitou o quadro negro com o cardápio e, com voz cortês, anunciou: “Camarada, por favor, gostaria de uma porção de carne de porco ao molho, almôndegas Quatro Felicidades, peixe crocante e costelas agridoce. E também uma porção de arroz.”
O atendente, semicerrando os olhos, avaliou a jovem de cabelos dourados e vestes simples: “Está procurando confusão? Olhe bem onde está!”
Ming Dai, inocente, pensou: O que fiz de errado?
Os clientes ao lado logo se animaram: “Que tipo de pessoa pede quatro pratos de carne de uma vez?”
O funcionário, em tom de escárnio, provocou: “Quatro pratos, não é? Podemos preparar, mas você tem dinheiro e cupons?”
Ming Dai enfiou a mão na bolsa: “Quanto custa?”
“Seis yuans e sessenta centavos, seis liangs de cupom de cereais, dois jin de cupom de carne. Você tem?”
Sem responder, Ming Dai revolveu o interior da bolsa e, em breve, depositou uma pilha de notas e cupons sobre o balcão.
O sorriso radiante da menina de cabelos dourados arrancou do atendente uma expressão sombria, que se dirigiu à cozinha para fazer o pedido.
Logo, os pratos surgiram à sua frente, e a mesa repleta de carnes fez com que os que aguardavam na fila a olhassem com inveja.
Ming Dai degustava sem qualquer constrangimento.
Oh! Como era perfumada a carne de porco ao molho!
Oh! Como eram saborosas as almôndegas Quatro Felicidades!
Oh! Que aroma tinha o peixe crocante!
Oh! Que delícia as costelas agridoce!
Provara todos os pratos, mas embora sua boca desejasse mais, o estômago já estava saciado.
De fato, as porções eram generosas e, tendo pedido quatro pratos, não conseguiu terminar tudo.
Quando todos se perguntavam o que faria, Ming Dai buscou na bolsa uma marmita, embalou os alimentos, limpou a boca com um lenço e saiu com a bolsa às costas.
Desde então, o restaurante estatal passou a ter a lenda da jovem que pedira quatro pratos de carne.
Saciedade alcançada, Ming Dai retornou para casa, passeando tranquilamente.
De volta ao lar, entregou-se a um delicioso sono vespertino.
Ao despertar, escutou batidas violentas à porta, acompanhadas de insultos. Aborrecida, trocou de roupa e saiu do espaço.
Do lado de fora, Xing Cuiyun, junto de Ming Yan Hong, esmurrava a porta e vociferava: “Ming Dai, sua fedelha, abra já! Não respeita os mais velhos, está se escondendo de mim, não é? Abra essa porta!”
Ouvira de Wang Dahua, sua vizinha, que a garota gastara todo o dinheiro deixado por Ming Changhe, comprando coisas para a vida no campo. Isso era inadmissível! Esse dinheiro deveria servir para casar seu filho!
Ming Dai, com a expressão de quem acabara de acordar, abriu a porta justo quando Xing Cuilan tentava dar um chute, mas perdeu o equilíbrio e realizou um perfeito espacate.
Tsc, tsc, tsc... A tia mais velha, mesmo envelhecida, ainda mantinha a agilidade de outrora!
“Ah!” Um grito semelhante ao de um porco sendo abatido ecoou da casa de Ming Dai, assustando os vizinhos que, curiosos, logo se retraíram.
Ninguém esperava que Ming Dai fosse tão implacável!
Vendo a mãe em tamanha agonia, Ming Yan Hong correu para ajudá-la, mas Ming Dai discretamente estendeu o pé e a fez tropeçar.
Ming Yan Hong cambaleou e caiu sobre a mãe.
“Ah!” O lamento, ainda mais pungente, assustou novamente os vizinhos.
“Que diabos, quem está chorando em casa como se fosse um funeral?!”
Li Dakan, solteirão que acabara de sair do turno noturno e tentava dormir, foi acordado e, resmungando, aproximou-se.
Ming Dai vislumbrou uma oportunidade e chamou: “Tio Li, venha ajudar! Minha tia está presa no espacate, não consegue se levantar!”
Li Dakan analisou a situação e confirmou: era verdade.
Apesar de Xing Cuilan não ser uma beleza madura, aos olhos de Li Dakan, que já não via uma mulher há anos, ela era tão atraente quanto as lendárias deusas.
Naquela época, olhar para uma mulher bonita era arriscado, podia ser acusado de comportamento indecente. O velho solteirão, há muito privado desse contato, agora via uma chance imperdível.
Transformou-se então no solícito Tio Li, e correu para dentro: “Ah, que queda terrível, não se preocupe, sobrinha! O tio Li levará sua tia ao hospital!”
Inclinando-se, passou os braços pelas pernas abertas de Xing Cuilan e a ergueu do chão.
De fato, ergueu-a por inteiro.
A tia, apesar de não ser leve, foi sustentada com firmeza, embora as mãos do velho não fossem tão discretas, e seu corpo se encostasse demasiadamente nela.
Assim, sob os gritos de Xing Cuilan e o olhar estupefato de Ming Yan Hong, Li Dakan saiu com ela nos braços, provocando comentários e risos entre os vizinhos.
Ming Dai, observando a cena, advertiu Ming Yan Hong: “Sua mãe foi ao hospital, não vai acompanhá-la?”
Só então ela se deu conta, lançou a Ming Dai um olhar feroz e, esquecendo-se de repreendê-la, correu atrás de Xing Cuilan.
Se realmente permitisse que a mãe fosse carregada daquela forma, ela e o irmão jamais conseguiriam se casar, e a mãe perderia toda dignidade.
Com todos fora, os moradores do pátio apontavam e riam na porta, divertidos.
Não importava: Li Dakan aproveitara a oportunidade e finalmente tocara uma mulher.
Mesmo sendo uma mulher mais velha, para o velho solteirão era motivo de júbilo.
O assunto logo voltou a Ming Dai.
Wang Dahua, com os olhos ágeis, viu que Ming Dai ia fechar a porta e, num salto, se intrometeu.
“Ming Dai, você está prestes a ir para o campo, as coisas da casa ficarão paradas, por que não emprestar para a tia Wang? Você sabe, minha família passa dificuldades, falta tudo!”
Tentou afastar Ming Dai da porta e entrar à força.
Os outros moradores do pátio, ávidos pelo tumulto, esperavam que Wang Dahua abrisse caminho para que todos invadissem a casa e a esvaziassem.
Afinal, Ming Dai era uma órfã, desprezada até pelos parentes; se roubassem, nada aconteceria.
Ming Dai, por dentro, sorria com frieza, mas sua mão pressionou discretamente um ponto de Wang Dahua, que imediatamente soltou um grito lancinante.
“Ah! Assassinato! Assassinato! Essa vagabunda matou alguém!”
O alarde foi tão grande que os curiosos se afastaram, temerosos.
Alguns, ávidos por mais tumulto, correram a chamar os funcionários do escritório comunitário.
O marido de Wang Dahua, ouvindo os gritos da esposa, saiu e tentou agredir Ming Dai.
“Fedelha, como ousa atacar minha mulher!”
Ming Dai torceu o braço de Wang Dahua e recuou.
“Pá!” O tapa ressoou, atingindo Wang Dahua no rosto, que inchou imediatamente, e ela, atordoada, caiu ao chão.
O marido de Wang Dahua olhou Ming Dai com fúria, tentando avançar.
Nesse momento, os funcionários do escritório comunitário chegaram, e a multidão abriu caminho.
O marido de Wang Dahua só pôde lançar um olhar ameaçador a Ming Dai e recuar.
Coincidência, entre os funcionários estava a senhora que Ming Dai conhecera antes, aquela que a levara para casa e pensara que ela havia pulado no rio.
Ming Dai permaneceu quieta, com olhos baixos e lágrimas discretas, sem dizer palavra, enquanto Wang Dahua, prostrada, se queixava:
“Ai, líder! Faça justiça! Essa vagabunda quase me matou!”
O líder, um homem de meia-idade, franziu o cenho ao ver a marca da mão no rosto dela: “Foi ela quem bateu?”
Apesar da pergunta, o tamanho da marca indicava que não fora a menina.
Wang Dahua, gemendo: “Ela bateu no meu braço, está quebrado!”
Levantou a manga do casaco.
Todos olharam.
Oh! Que pele grossa!
O líder, vendo apenas poeira, sem sinais de ferimento, irritou-se: “Que absurdo!”
Wang Dahua, incrédula, apalpou o braço, esfregou e tirou algumas bolinhas de sujeira, causando repulsa nos demais.
Ela, ressentida, não entendia: sentira o braço prestes a quebrar, como não havia ferimento?
Ming Dai, no momento oportuno, enxugou as lágrimas, com olhos vermelhos, exibindo a imagem de uma órfã frágil e injustiçada.
Wang Dahua, num movimento brusco, tentou se lançar sobre Ming Dai.
“Foi você, sua vagabunda! Que feitiço fez? Meu braço parecia quebrado, como não há ferida?!”
A senhora de braçadeira vermelha explicou ao líder quem era Ming Dai.
Uma jovem obrigada a ir para o campo, órfã de catorze anos, frágil; do outro lado, uma mulher suja e escandalosa. O peso da balança era evidente.
“Espalhando superstição! Levem-na!”
Os jovens que acompanhavam o líder imediatamente arrastaram Wang Dahua, ignorando seus protestos.
O pátio silenciou; ninguém ousou interceder, nem o marido da mulher.
Ming Dai fechou a porta, desinteressada pelo espetáculo externo.