Capítulo Três: A Teoria do Pavão
— Chegado a este ponto, já me estabeleci na ilha de Kalimantan, tenho uma namorada cujos olhos refletem apenas a minha imagem e, em breve, terei meu primeiro filho.
— Mas ainda me lembro frequentemente daquela noite em LS; fazia frio, a neve branca caía do céu, eu e o irmão Nan queimávamos carvão no terraço, bebíamos Niulan Shan enquanto assistíamos à neve.
— A escolha é mais importante que o esforço; as mulheres não se conquistam, atraem-se. Que sorte a minha, ter encontrado o irmão Nan justamente quando eu mais me sentia perdido, e os conselhos dele realmente mudaram o rumo da minha vida.
Zheng Xudong, enquanto recordava, retirou o celular do bolso, folheando antigas fotografias, ampliando-as e aproximando o aparelho da câmera para mostrar aos espectadores do streaming.
É forçoso admitir: o velho Zheng de outrora tinha um gosto estético deplorável. Apesar de ser um jovem de vinte e poucos anos, insistia em vestir-se como um funcionário aposentado.
Casaco preto, volumoso, sapatos grandes, um corte de cabelo à la anos sessenta, tudo isso o envelhecia em ao menos trinta anos.
— Pare de me bajular, rapaz — disse Zhao Nan, acenando com a mão e sorrindo. — Na verdade, sou apenas uma pessoa comum. No passado, como todos vocês, trilhei muitos caminhos tortuosos, vivi momentos de confusão e experiências dolorosas.
— Felizmente, decidi sair, conhecer o mundo lá fora, contemplar paisagens distintas. Aos poucos, compreendi verdades jamais reveladas por pais ou professores — nada além disso.
— O velho Zheng há pouco mencionou investir em si mesmo; na psicologia, há um termo específico para isso: teoria do pavão.
— O princípio é simples: é necessário exibir-se plenamente, pois, quando uma mulher observa um grupo, sua atenção será imediatamente cativada pelo mais destacado entre eles. Aqueles que sabem mostrar-se, naturalmente, receberão mais atenção e oportunidades do que os outros.
— Ter bom gosto não significa gastar em marcas caras; basta vestir-se com frescor e adequação. O segredo está na qualidade, não na quantidade. O que se gasta nisso mal chega ao valor de dois jantares japoneses. Do ponto de vista do investimento, investir em si mesmo sempre foi uma escolha inteligente de excelente custo-benefício.
— Sei que hoje muitos influenciadores inescrupulosos lavam os cérebros, incentivando a gastar dinheiro, dizendo que qualquer problema resolvível com dinheiro não é problema algum; aparência não importa, só importa ter dinheiro para conquistar a mulher desejada.
— Talvez essa ideia não esteja totalmente errada; se você for tão rico quanto Qiangdong, pode de fato levar Zhetian para casa.
— Mas a questão é: a vasta maioria jamais chegará a um milésimo, a um décimo de milésimo do que ele possui.
— E mesmo que você seja o mais rico do mundo, de que serve isso?
— Pergunto: onde está Qiangdong hoje? O que aconteceu para que, de repente, ele se aposentasse?
— Neste mundo prodigioso, nada nos pertence além de nós mesmos.
Zhao Nan, de súbito, olhou com acuidade, franzindo a testa:
— Suponhamos que você realmente goste de gastar dinheiro; não seria melhor investir em seus pais, em seus familiares? Afinal, foram eles que o criaram, e, quando enfrentar verdadeiros perigos, só poderá confiar neles.
— Quem aprecia você, quem gosta de você, não precisa de refeições opulentas; se você gastar a mais, ela se preocupará, economizará por você, pensará em seu bem-estar.
— Já aquelas que só vêm ao encontro após três horas de atraso e apenas se você pagou um jantar caro, jamais o têm no coração; você é apenas um instrumento.
— Todos sabem: nunca faltam mulheres ao redor dos canalhas, trocando-as como quem troca de roupa.
— Mas todos os canalhas são ricos?
— Pelo que sei, muitos canalhas não têm dinheiro algum; sobrevivem sustentados por mulheres. Já pensaram por que isso acontece?
— Todos que dizem que homens não precisam se preocupar com aparência, que o interior é mais importante, sejam antigos professores ou parentes próximos, são, sem exceção, ou tolos ou mal-intencionados.
— No mundo real, uma aparência limpa e fresca é pré-requisito para tudo, e a teoria do pavão é a primeira lei para um homem conquistar sua liberdade afetiva.
— Quer permaneça na pátria, lutando, quer rompa as amarras e vá ao mundo lá fora, antes de tudo, valorize sua imagem e saúde…
Zhao Nan, diante da câmera, discorria com desenvoltura; sua fala acelerava, os sentimentos transbordavam.
Não se pode afirmar que suas palavras tenham o impacto de uma revelação, mas, ao menos, a experiência de Zhao Nan iluminava a todos os espectadores presentes.
— Aquele método dos professores: ou tolos ou mal-intencionados? Irmão Nan é audacioso!
— E daí que são professores? São intocáveis, por acaso?
— Nan está certo. Depois de experimentar as cruéis lições do mundo, arrependo-me de ter seguido cegamente pais e professores; sua doutrina é pura educação de massa ignorante.
— Desde que se aboliu as cem escolas e se exaltou o confucionismo, cada dinastia perpetuou a hierarquia pai-filho, governante-submisso. Pena que há tantos filhos obedientes e honestos, e tão poucos como Nan, que ousam desafiar a autoridade; não há força suficiente para causar tempestades.
— Pensando bem, sou mesmo um insensato! Gasto milhares comprando bolsas para ex-namoradas, mas sequer lembro o aniversário da minha mãe. Sempre que tento dar dinheiro aos meus pais, recusam, dizem que é suficiente, e eu realmente acreditei!
— Aproveite enquanto seus pais estão vivos: leve-os para comer bem, viaje com eles.
— Nan combina comigo; depois de ouvir tantas narrativas grandiosas, estou exausto. Agora, além dos meus pais e de mim mesmo, não quero assumir responsabilidade por ninguém.
— Talvez seja isso o grande fluxo irreprimível de que Nan fala. Estranho: daqui em diante, homens preferirão estar solteiros a perseguir mulheres. Não me preocupa; pelo contrário, aguardo esse futuro com expectativa.
— Eu também. Que venha a destruição, pulverize tudo do passado! Estou cansado, não quero mais me esforçar em vão!
— Quem não pode partir, que permaneça na pátria cuidando de si; quem pode, siga Nan e viva a loucura além-fronteiras. Espero ansiosamente por esse futuro.
Talvez porque Zhao Nan tocou algo profundo, os espectadores debatiam com fervor. Tudo o que aconteceu nos últimos anos parecia marcado a ferro em suas memórias, mudando radicalmente suas antigas crenças.
Quanto mais sincera era a fé, mais violenta a reação.
Auto-emoção, narrativas épicas, honra coletiva — palavras familiares, mas agora distantes, estranhas e até dolorosas.
Antes de conhecer Zhao Nan, a maioria no streaming estava perdida; o passado era irrecuperável, e ninguém sabia para onde ir em seguida.
Zhao Nan, embora rebelde e nem sempre preciso, ao menos oferecia aos desconcertados uma escolha menos terrível.
Você pode não escolher, mas é melhor preservar ao menos um pouco do direito de escolher.
O efeito do streaming era notável; não se sabe quando, mas o número de espectadores ultrapassou mil.
Zhao Nan fez um gesto com as mãos, pedindo silêncio.
Quando as mensagens diminuíram, Zhao Nan disse:
— Sei que todos têm grande interesse no plano de “externalização”, na teoria do pavão, em tudo que falei, desejando experimentar imediatamente.
— Mas muitas experiências e lições não bastam ser ditas; exige-se prática verdadeira. Como já mencionei, no fim do streaming sortearei um espectador afortunado, a quem acompanharei integralmente como parceiro, auxiliando-o em sua jornada.
— Seja para a Ásia, Europa, até mesmo a distante América do Sul ou a árida África — não hesitarei em acompanhá-lo até o fim.
— Aproveito para dizer: quero que este streaming seja não só o ponto de partida da externalização, mas também um espaço onde possam tornar-se amigos, parceiros uns dos outros.
— Parceiro, em essência, é aquele que incentiva e coopera; quando estiver sozinho, em terra estrangeira, ter alguém ao lado é essencial.
— Sobre parceiros, explicarei melhor no futuro, mas por ora, voltemos ao tema: não podemos desperdiçar a presença do velho Zheng, que veio do exílio em Kalimantan para o streaming; é uma chance de conhecer sua vida no exterior.
— Velho Zheng.
— Diga, irmão Nan.
— Pelo que entendi, Shuzhen está grávida?
— Sim, há três meses — respondeu Zheng, constrangido, coçando a cabeça, mas sorrindo abertamente.
Zhao Nan replicou:
— Que maravilha! Somos irmãos, alegro-me de coração por você. Quando o pequeno nascer, darei um grande presente.
Zheng apressou-se em recusar:
— Não precisa, não precisa. Se não fosse por você, irmão Nan, nada disso teria acontecido. Só de você vir ao banquete do primeiro mês, já me deixa feliz; não fale em dinheiro.
— É apenas um gesto de carinho, não recuse — insistiu Zhao Nan. — Vejo que Shuzhen não está ao seu lado; foi estudar, não? Queria felicitá-la pessoalmente.
Zheng respondeu:
— Ela foi à escola, está voltando para casa; daqui a pouco você poderá vê-la. Sugeri que, estando grávida, tirasse um ano de licença, ficasse em casa; mas ela prefere esperar até o fim do semestre. Como ela é estudiosa, não insisti.
Zhao Nan, já conhecedor da situação entre Zheng e a namorada, assentiu sem surpresa, nada acrescentando.
Entretanto, esse breve diálogo desencadeou uma tempestade no streaming, deixando muitos espectadores em polvorosa.