Capítulo 003: Não Chorou
A gata preta, assim que foi erguida pela nuca por Lantian, desistiu instantaneamente de lutar, abandonando-se às mãos dela enquanto retornavam. Suas patas e cabeça pendiam languidamente, apenas a cauda se agitava inquieta de um lado para o outro, como se protestasse em silêncio.
Binglian observou a silhueta de Lantian afastando-se, murmurando para si mesma: “Hoje estou de bom humor, vou te dar uma bênção extra... que todos os seus desejos se realizem!”
Mengji, carregando Binglian — que recomeçara a execução de “Canção de Primavera na Neve” — afastou-se. Antes de partir, uma flor de lótus de gelo, formada por notas musicais, transformou-se em um feixe de luz e penetrou na nuca de Lantian.
Lantian, alheia a tudo isso, logo retornou ao jardim com a gata. O cenário ali dentro era um outro mundo, completamente distinto do que havia do lado de fora.
Do outro lado do portão de ferro estava o jardim, onde naquele momento chovia. Havia no ar um leve odor de pesticida misturado à chuva, e Lantian recordou-se do que estava escrito na placa: o jardim era aspergido com pesticida a cada três horas.
No caminho de volta, Lantian refletia sobre as palavras do mercador misterioso. Não seriam necessárias apenas uma ou duas flores para passar de fase — talvez três? Decidiu-se: melhor colher mais algumas, prevenir não custa.
Lantian aguardava o fim da chuva de pesticida, e enquanto esperava, pensava na sua sorte recente, desejando que a boa fortuna persistisse, sem surpresas desagradáveis — pois um contratempo agora seria desastroso.
A chuva do outro lado do portão não cessava; por um instante, Lantian teve a impressão de estar em ambientes distintos: dentro, o sol brilhava intensamente, enquanto lá fora a tempestade não dava trégua. Tal estranheza fê-la sentir uma leve vertigem, como se o espaço se distorcesse ao seu redor.
As gotas de chuva, ao tocar o solo, desenhavam minúsculas flores d’água — pareciam duendes bailando sem cessar sobre as folhas. Por um momento, Lantian experimentou uma paz profunda, tão serena que desejou permanecer ali, solitária, até o fim dos tempos.
A chuva de pesticida não durou muito; logo cessou, e Lantian adentrou o jardim, prestes a colher as íris, quando o sistema soou: “Missão falhou! Por favor, faça sua escolha.”
Entre [Recomeçar] e [Ressuscitar no local], Lantian escolheu [Ressuscitar no local], mas foi informada: [Desculpe, seus créditos estão zerados, esta opção não está disponível. Por favor, escolha novamente.]
Ao ler tal mensagem, Lantian teve vontade de praguejar. Que disparate! Para que tantas opções, se não pode escolher? Não podiam simplesmente dar logo uma opção?
Antes que pudesse protestar, foi devolvida ao espaço inicial — um quarto velho e decadente.
O cômodo permanecia deserto; o solo era coberto por lajes de pedra azulada, daquelas usadas em calçadas, agora tomadas de musgo e ervas daninhas que brotavam teimosamente pelas frestas.
As paredes, outrora brancas, tornaram-se imundas, manchadas de sujeira e de grafites ininteligíveis. Em alguns pontos, o reboco descascara, revelando grandes manchas cinzentas.
Uma folha de papel flutuou do teto, trazendo o progresso das tarefas de Lantian naquele dia:
[Primeiro Nível:
Missão Principal: Salvar as Íris (incompleta)
Missão Secundária (1.1): Plantar bulbos de íris (falhou) [Motivo do fracasso: os brotos devem estar pelo menos 2cm sob a terra, caso contrário, o herbicida pode causar sua morte.]
Missão Secundária (1.2): Descobrir a origem das íris (sucesso) [As íris são nativas das regiões temperadas do norte; resposta correta!]
Missão Secundária (1.3): Pintar íris na bandeira dos cruzados (em andamento) [Dica: tem relação com Luís VII!]
…]
Lantian contemplou o papel; assim que terminou de ler, ele envelheceu rapidamente, surgiram manchas amareladas e, por fim, tornou-se pó, esvaindo-se entre seus dedos e desaparecendo no chão.
O ambiente ao redor era de uma quietude opressiva e decadente; Lantian sentiu-se desconfortável, envolta por pensamentos de inutilidade.
Aos poucos, agachou-se, abraçando-se, permitindo que as emoções negativas a inundassem.
“Miaaaau...” O miado da gata a resgatou do poço de tristeza. A gata preta, com o dorso arqueado, roçava-se insistentemente em suas pernas; o pelo macio como seda conteve as lágrimas prestes a rolar.
Lantian ergueu o rosto, engoliu as lágrimas, e, tomando a gata nos braços, foi até a porta e clicou na opção [Continuar o jogo].
Uma luz branca emergiu do batente. Lantian adentrou o feixe; quando este se dissipou, percebeu que estava de volta ao jardim inicial.
Ali, a chuva cessara, e as folhas ainda ostentavam gotas reluzentes, que refratavam a luz do sol em belos reflexos. O ar trazia um leve aroma de herbicida; Lantian notou que o olfato estava ainda mais apurado, e franziu o cenho.
O caminho pós-chuva estava salpicado de lama, e, como o personagem lobo não usava sapatos, Lantian logo sujou os pés.
Quando chegou ao local onde plantara os bulbos de íris, percebeu que já não precisava repeti-lo. Do solo, vários brotos verdes despontavam — o sistema os plantara automaticamente.
Sem tarefas a cumprir, Lantian sentiu um vazio e se pôs a se culpar, pensando que, se tivesse sido mais cuidadosa, teria completado o objetivo.
O olhar recaiu sobre o barro em seus pés — ficou absorta. Algumas caixas de memórias, seladas há tempos, se abriram.
A brisa suave balançou as folhas, fazendo cair gotas sobre uma formiga que passava. Ao mesmo tempo, Lantian foi submergida em lembranças.
“Quantas vezes preciso repetir? Mamãe está sempre ocupada, não pode prestar atenção por si mesma? Pare de brincar no barro com os outros! Sujar a roupa dá trabalho para lavar! Uma menina deve ser limpa, deveria tentar entender mais a mãe...”
A voz, familiar e cortante, ecoou. Lantian viu-se num quintal de capim alto, quase à sua altura.
Ao lado, a figura imponente da mãe a repreendia de cima para baixo, as palavras tornando-se cada vez mais cruéis. Lantian baixou a cabeça, permitindo que lágrimas, como bagos de uva, caíssem pesadamente.
Ao olhar para o próprio vestido, viu a lama: o vestido lilás manchado de marrom, os tênis de lona azul e branca irreconhecíveis sob a sujeira.
[Não é assim... Ela não queria dar trabalho à mãe. Foram aquelas crianças mais velhas que a chamaram de bastarda sem pai, disseram que ela não ligava — mas insultaram a mãe... Não se pode insultar a mãe, ninguém pode...]
Dentro da pequena Lantian, alguém gritava, mas ela continuava de cabeça baixa, chorando em silêncio.
Quando insultaram a ela, não chorou. Quando insultaram a mãe, atirou terra neles. Quando foi agredida, não chorou. Quando a empurraram no lodaçal, não emitiu um som...