Capítulo Zero Zero Cinco: A Língua à Mostra
No exíguo banheiro, a pequena Lantian lavou as roupas que acabara de tirar, torceu-as até quase secar, dobrou-as cuidadosamente e as colocou na bacia. Naquele ano, Lantian contava apenas cinco anos de idade.
Ao lavar as roupas, Lantian, sem querer, molhou as mangas e as barras das calças. Mesmo utilizando água quente, quando a umidade esfriou, aderiu ao seu corpo, e o inverno em nada era acolhedor.
Havia apenas uma janela de venezianas no banheiro, mas o vento gélido insistia em se infiltrar. Lantian, já experiente, acomodou-se sob a janela, encostando as costas à parede e encolhendo-se num canto, de modo que o frio se tornasse menos atroz.
A noite caiu rapidamente. Havia uma lâmpada no banheiro, mas o interruptor ficava do lado de fora.
Quando o frio se tornou insuportável, Lantian buscou um pouco de água quente do aquecedor solar, porém, apenas uma pequena porção, usando o copo de escovar os dentes.
Ao sorver devagar a água morna, sentiu o calor se espalhar pelo corpo miúdo. Lantian abraçou o copo, bebendo a pequenos goles.
{Não se pode desperdiçar água. Mamãe disse que a conta de água precisa ser paga; mamãe volta do trabalho exausta todos os dias, não devo ser insensata, não posso dar-lhe mais preocupações.}
“Tic... tac...” Logo a chuva começou a cair lá fora, e o vento trouxe gotas para dentro. Lantian precisou mudar de lugar, refugiando-se junto à pia, onde a chuva não a alcançava.
{Está chovendo... Será que mamãe levou guarda-chuva?}
No instante em que a chuva começou, Lantian não pensou em como atravessaria aquela longa noite, mas sim em saber se sua mãe se abrigara.
A chuva do inverno, ao tocar um corpo, gelava até os ossos. Assim, a pequena Lantian escutava o som da água, apoiada à parede, e adormeceu profundamente.
“Miau...” O miado de um gato trouxe Lantian de volta do passado ao jogo. Ao abrir os olhos, deparou-se com um enorme rosto felino: um gato preto lhe lambia o rosto com sua língua áspera.
Lantian sentiu um leve formigamento na face e percebeu que estivera deitada ali já havia muito tempo, pois ao redor tudo estava mergulhado em escuridão.
O corpo do corvo branco havia sumido. O som da chuva, “tic, tic”, alertou Lantian de que a chuva recomeçara, e ela precisava partir dali o quanto antes, pois sua cabeça latejava cada vez mais forte.
No chão, ao lado, repousavam as íris que Lantian colhera. Com uma mão, apanhou as flores; com a outra, o gato preto, e correu para o portão de ferro.
Enquanto corria, por um momento pensou em abandonar o gato e as flores, lançando-se a correr em quatro patas. Mas a razão impediu-a de agir assim.
Do outro lado do portão de ferro, era dia claro, sem vestígio de chuva.
Lantian notou que sua visão melhorara significativamente; conseguia até distinguir as pequenas ondas que se formavam à superfície do rio. O reflexo das estrelas na água confundia: onde era o céu, onde era o rio?
Seu corpo exalava o odor desagradável do herbicida, mas as íris floresciam com ainda mais vigor, intocadas pela contaminação.
Lantian deixou o gato e as flores à margem, e num salto lançou-se ao rio. A água gélida dissipou a névoa de tontura e ela atribuiu tal alívio à lavagem do veneno.
O gato preto permaneceu à margem, tranquilo, limpando as patas com a língua, observando Lantian brincar na água. Quando ela espirrou gotas para o lado, o gato recuou alguns passos.
{Cães são cães, gostam de se molhar assim... Para que lavar o rosto com água? Lamber é muito mais limpo!}
O gato lançou-lhe um olhar de desprezo, mas Lantian, entretida na água, não percebeu.
Ignorando os pensamentos do gato, Lantian saiu da água, sacudiu vigorosamente o corpo e espalhou gotículas ao redor.
O gato preto foi novamente atingido e, impassível, retribuiu com outro olhar de desdém.
Desta vez, Lantian percebeu o desdém, mas não se importou. Pegou as íris com a boca e correu na direção da ponte.
Os cavaleiros cruzados ainda vigiavam a ponte, suas armaduras reluziam no escuro, como se refletissem o luar.
Reconheceram Lantian. Pela manhã, a viajante sombria tentara forçar passagem, mas fora sempre detida pelo gato preto, que a arrastava pelo rabo de volta.
Agora, mais uma vez, os cruzados não lhe deram oportunidade de atravessar à força; com espadas longas e escudos, barraram-lhe o caminho.
Os olhos de Lantian haviam-se tingido de vermelho-sangue — um efeito colateral da carta de personagem lobisomem. À noite, sua força duplicava, mas seu intelecto se esvaía.
Lantian largou as íris; os caules estavam úmidos, ensopados de saliva. Ela sentou-se à entrada da ponte como um cãozinho, e pôs-se a mostrar a língua para os cavaleiros.
Os cruzados, vendo que ela não forçava passagem, simplesmente a ignoraram.
Lantian inclinou a cabeça, pensativa, sem entender a indiferença dos cruzados. Após longo tempo, com a língua dormente, lembrou-se: eram três íris que devia oferecer.
Separou três flores, empurrou-as com a pata até os pés dos dois cavaleiros centrais.
Se estivesse plenamente consciente, Lantian teria notado que restavam apenas seis cavaleiros; pela manhã, eram sete.
Mas, no seu estado, não prestava atenção a tais detalhes. Só queria atravessar a ponte e subjugar aqueles guerreiros para lutar por ela.
Os cruzados, contudo, permaneceram imóveis, sequer olharam para Lantian ou para as flores. Erguiam-se como estátuas, impassíveis.
Lantian inclinou a cabeça, sem compreender por que não se prostravam em submissão. Será que não estavam dispostos? Nesse caso, as flores que colhera não serviriam para nada? Uma pontada incômoda lhe atingiu o peito; sentiu-se entristecida.
Pegou as três íris com a pata e, sem vontade, deixou-as cair ao chão. O que não serve, não merece ser guardado — melhor descartar.
Mas, no instante em que as três flores flutuavam no ar, começaram a irradiar brilho de gema, fulgurantes e deslumbrantes.
As flores pousaram na bandeira desbotada, onde surgiram três lírios dourados.
Ao dissipar-se o clarão da bandeira, os seis cavaleiros se afastaram, abrindo passagem para Lantian.
De cada lado, três cavaleiros ajoelharam-se sobre um joelho, em postura de fidelidade.
— Hehehe... De hoje em diante, vocês serão meus seguidores! Venham, vou liderá-los para a batalha! Auuuu...
Lantian abriu um sorriso largo e, ao terminar, não se esqueceu de soltar um uivo.
O som ecoou forte, como se pudesse atravessar as nuvens, assustando os corvos brancos no jardim ao longe, que, despertos, puseram-se a bradar impropérios contra a viajante noturna e sua falta de decoro.