Capítulo 004: O Mais Perverso
Mas agora, quando a mãe a repreendia, Lan Tian sentia apenas uma dor insuportável no peito; aquelas palavras eram como punhais, retalhando-lhe incessantemente o coração.
A partir de então, Lan Tian tornou-se extraordinariamente zelosa com a limpeza, não admitia sequer uma mancha em si mesma, deixou de gostar de brincar fora e evitava o contato com outras pessoas. Passava os dias reclusa em seu quarto, debruçada na janela, olhando para as nuvens brancas e os pássaros no céu, perdida em devaneios.
“Miau...” O miado do gato preto soou como uma pedrinha quebrando o lacre de um pequeno frasco, puxando Lan Tian de volta à realidade.
Quando se deu conta, algumas flores de lama já haviam marcado suas pernas—obra do travesso felino. Lan Tian, aborrecida, deu-lhe um leve tapinha.
Já que aquela tarefa não podia mais ser cumprida, restava ir em busca da próxima, pensou Lan Tian, erguendo-se para dirigir-se ao portão de ferro.
Porém, o gato preto a guiou até um canteiro onde floresciam íris.
Ali, cresciam numerosas íris; Lan Tian achava que cada flor reluzia, as gotas de chuva pendendo das pétalas brilhavam como diamantes, e as pétalas eram tão finas quanto véus de tecido.
As íris roxas balançavam ao vento como a barra do vestido de uma fada. Por um instante, Lan Tian teve pena de colhê-las, sentindo que destruir tamanha beleza era um crime. Contudo, precisava cumprir sua missão, e teve de quebrar o caule das flores.
“Perdoem-me!” Lan Tian murmurou um pedido de desculpas às flores, e começou a colher as íris.
Whoosh... Uma brisa passou rente ao ouvido de Lan Tian, e ela percebeu que um pássaro branco, vindo não se sabe de onde, voou até ela e bicou-lhe a mão quando se preparava para colher outro ramo.
O bico afiado do pássaro rasgou o dorso da mão esquerda de Lan Tian, e logo um tênue cheiro de sangue se espalhou pelo ar.
“Au!” O gato preto, ao ver Lan Tian ferida, lançou-se sobre o pássaro branco.
O corpo daquela ave era maior até que o do gato preto, seus olhos fulguravam de um vermelho sanguinolento, como duas rubis empoeiradas.
“Ah! Ah, ah!” O som que o pássaro branco emitia assemelhava-se ao grasnar de um corvo; era a primeira vez que Lan Tian via um corvo branco.
A capacidade de combate do corvo branco superava as expectativas de Lan Tian; sua vitalidade era quase metade da dela.
Apesar de ferida e perdendo sangue, Lan Tian não estava em desvantagem: também conseguiu arranhar o corvo branco.
O corvo branco, com uma bicada, tirou cinquenta pontos da vitalidade de Lan Tian, mas ela, com uma patada, subtraiu quatrocentos e vinte pontos da ave.
Embora o corvo branco mantivesse vantagem aérea, o gato preto também o atacava, e juntos, humano e felino, coordenavam-se tão bem que logo o sangue vermelho manchou as penas brancas do inimigo, enquanto a vitalidade de Lan Tian se recuperava a cada segundo.
Incapaz de regenerar-se, o corvo branco foi rapidamente abatido por Lan Tian e o gato, caindo ao chão sem forças para se reerguer. Lan Tian não lhe tirou a vida, apenas o atirou para que o gato preto se divertisse.
O gato preto regozijou-se com o novo brinquedo; segurou o corvo branco com as patas e, com seus dentes afiados, arrancou uma a uma as penas da cauda.
O corvo branco, vendo aqueles intrusos—um gato e, estranhamente, um cachorro—invadirem seu canteiro, sentia-se ultrajado. Cultivara aquelas íris com tanto esforço, e agora, quando finalmente floresciam, eram profanadas por patas caninas.
Agora o cão destruía suas íris, e o gato lhe arrancava as mais belas penas da cauda—plumagem alva como de cisne, que levara tanto tempo para crescer.
Sem as penas na cauda, seu traseiro ficaria exposto ao vento! Os gatos, de fato, eram as criaturas mais pérfidas deste mundo.
Se não fosse pela covardia de se unirem contra ele, dois contra um, jamais teria sido derrotado de modo tão lastimável!
Lágrimas de sangue brotaram dos olhos do corvo branco, que, lançando um último olhar às suas queridas flores, fechou os olhos.
Lan Tian colheu treze hastes de íris—não por falta de vontade, mas porque eram poucas as flores abertas naquele pequeno canteiro.
As íris em seu colo floresciam exuberantemente. Lan Tian lançou um olhar ao canteiro, agora depauperado, e ao corvo branco, igualmente depenado pelo gato preto, sem uma única pena intacta.
Vendo as lágrimas de sangue nos olhos do corvo branco, Lan Tian sentiu piedade. Achou preferível pôr fim ao sofrimento da ave do que permitir que o gato continuasse sua tortura.
O gato preto, lambendo o sangue das patas, olhou com desprezo para o moribundo corvo branco, considerando-o incrivelmente fraco.
Quando Lan Tian se aproximou, o gato imaginou que ela também quisesse brincar com o novo brinquedo; parou de lamber as patas, recuou com um passo elegante, e cedeu-lhe o pássaro quase sem vida.
No entanto, ao se agachar, Lan Tian, com um único golpe, separou a cabeça do corvo branco do corpo, tão rápido que o gato preto não pôde reagir.
As penas ensanguentadas caíram ao chão, e Luo Xi, imitando o gato preto, lambeu o sangue das próprias garras; o gosto ferroso trouxe-lhe novamente recordações do passado.
Na memória, a comida preparada por sua mãe sempre fora excessivamente salgada, de sabor forte. No início, Lan Tian precisava sempre beber água durante as refeições, mas, após algumas repreensões, passou a devorar o arroz rapidamente, evitando os acompanhamentos.
A cada refeição, Lan Tian alternava uma garfada de comida para duas ou três de arroz, assim o desconforto era menor.
Desde que se lembrava, Lan Tian jamais vira o pai; sempre vivera apenas com a mãe.
Muito jovem, aprendeu a cuidar de si mesma—e até a cuidar da mãe quando esta se embriagava.
Moravam num vilarejo pequeno; a mãe trabalhava numa loja de celulares e, por vezes, chegava muito tarde. Sempre trancava Lan Tian sozinha em casa.
Desde cedo, Lan Tian sabia que chorar não adiantava; se sentisse fome, buscava comida por conta própria, se sentisse sede, ia buscar água sozinha.
Certa vez, após dois dias sem ver a mãe, Lan Tian tentou preparar algo na cozinha e queimou a panela. Temendo ser repreendida, esfregou a base escurecida com o pó compacto da mãe.
Depois daquele dia, a mãe passou a trancar a pequena Lan Tian no banheiro sempre que saía.
A frase mais ouvida nas broncas maternas era: “Nunca devia ter te posto no mundo, você é tão sem coração quanto seu pai.”
Por muito tempo, Lan Tian acreditou que sua existência era um erro. Por exemplo, agora, achava que só estava trancada no banheiro porque demorara demais no banho.
“Se ao menos eu tivesse tomado banho mais rápido, mamãe não teria se irritado. Ela parece ter esquecido que ainda não jantei; a culpa é minha, se eu tivesse me apressado, ela não teria esperado por mim para comer, não estaria zangada...”
A jovem Lan Tian não percebia que não tinha culpa alguma; quem sempre estivera errada era a mulher que chamava de mãe—Lan Ling.