Capítulo 007 — O Perdão
A lógica de Lan Ling — “eu te maltrato porque tenho medo que me abandones” — era, sem dúvida, anormal. Contudo, a jovem Lan Tian jamais se dera conta disso; ao longo de sua vida, sequer soube como amar de maneira adequada, tampouco como aceitar o afeto sem culpa ou hesitação.
Quando as lágrimas escorriam pelo rosto de Lan Ling, as pequenas mãos de Lan Tian, ainda tão infantis, as enxugavam delicadamente, e naquele instante, ela perdoava em seu íntimo tudo o que a mãe lhe fizera antes.
E quando Lan Ling levou Lan Tian ao consultório, no coração da menina havia apenas gratidão para com a mãe. Afinal, durante todo o trajeto, Lan Ling se culpava incessantemente, repetindo que não era uma boa mãe, que não podia perder Lan Tian.
Os olhos outrora límpidos de Lan Ling agora transbordavam lágrimas ininterruptas; os cílios, encharcados, grudavam-se uns aos outros, e uma pequena gota pendia deles, tal qual uma pérola de orvalho sobre a pétala de uma flor de pereira.
Nos olhos maternos, Lan Tian viu seu próprio reflexo. Sentiu que ocupava todo o coração e o olhar da mãe, e chegou a compadecer-se dela.
No consultório familiar, a médica — sempre a mesma — tratou das feridas de Lan Tian como de costume. O odor acre do desinfetante saturava o ar, tornando-o quase insuportável para a menina, que detestava aquele lugar.
Sempre que ali estava, a médica repreendia sua mãe, mesmo quando ela nada fizera de errado, a ponto de fazê-la chorar em todas as ocasiões.
“Como podem olhos tão belos viver marejados de lágrimas?”, pensava Lan Tian. A própria médica lhe dissera um dia que chorar demasiadamente faz mal à visão, e ainda assim fazia sua mãe chorar tanto.
As feridas de Lan Tian eram graves; e, como já era habitual, a médica nem hesitou e iniciou o tratamento. Durante todo o procedimento — pontos, curativos, ataduras —, Lan Tian não derramou uma lágrima sequer, imóvel como um boneco danificado, sentada obedientemente. Em contraste, Lan Ling, sentada ao lado, chorava sem cessar.
“Criança, tu és diferente das demais. Mesmo com feridas tão sérias, não soltas um lamento.” A médica, embora já tivesse presenciado aquilo mais de uma vez, ainda se admirava.
Lan Tian não respondeu; voltou-se para Lan Ling e disse: “Mamãe, não chores. Não dói.”
Por vezes, a médica suspeitava que Lan Tian não sentisse dor, mas, ao walking a agulha, notava-lhe o leve piscar dos olhos e o rosto se voltando para o lado.
Lan Tian, já naturalmente debilitada pela dor, ainda buscava consolar a mãe após o curativo. O cansaço, denso como as marés que assaltam a praia, invadia-lhe a mente em ondas sucessivas.
Ela deixou-se submergir naquele mar de emoções negativas, cercada por águas escuras que a comprimiam até reduzi-la a uma pequena gelatina vermelha quase negra, imóvel, sem ar, incapaz de se mover.
De súbito, a gelatina se rompeu e um feixe de luz penetrou pela fenda, trazendo consigo uma lufada de ar fresco, que devolveu a Lan Tian a sensação de renascimento.
Ao despertar, Lan Tian ainda sentia o peito apertado, a respiração dificultosa. Fitou e viu, sentada em seu peito, a negra felina, que a encarava altiva, qual rainha a observar sua serva desastrada.
Ao perceber que Lan Tian despertara, a gata, fingindo indiferença, afastou-se com passos lentos e graciosos, ainda pisando duas vezes sobre o peito da menina antes de partir.
Lan Tian sentou-se e olhou ao redor; reconheceu o pequeno aposento de sempre. Tudo lhe era familiar, exceto pelo aumento das ervas daninhas que cresciam entre as pedras do chão, agora mais altas. As paredes, talvez por impressão sua, pareciam mais brancas do que antes.
Entre as ervas, algumas folhas secas e amareladas lhe pareceram naturais; não prestou atenção ao fato de que, da última vez que ali despertara, as folhas eram apenas viçosos brotos verdes.
Do alto, uma folha de papel branca flutuou suavemente, assemelhando-se à lista de tarefas que Lan Tian já conhecia, mas agora com novos itens:
[Primeiro Nível:
Missão Principal: Salvar o Lírio (Não Concluída)
Missão Secundária (1.1): Plantar o bulbo do lírio (Fracasso) [Reiniciar disponível]
Missão Secundária (1.2): Encontrar o local de distribuição do lírio (Sucesso) [Salvar disponível]
Missão Secundária (1.3): Pintar o lírio na bandeira dos Cruzados (Sucesso) [Salvar disponível]
Missão Secundária (1.4): Limpar os pinheiros diante da cabana dos lírios (Fracasso) [Reiniciar disponível]
...]
Lan Tian percebeu, também, que seu saldo aumentara em vinte e oito moedas de cristal sombrio — uma verdadeira fortuna! Cada moeda permitia participar de um sorteio; até mesmo cartas de personagem como a da Gata Negra ou do Lobisomem custavam apenas uma moeda, o que a fez sentir-se leve como uma folha ao vento.
“Miau!” O miado da gata retirou Lan Tian de seu devaneio, fazendo-a limpar o fio de baba que lhe escorria pelo canto da boca.
Lan Tian deduziu que essas moedas de cristal foram obtidas ao derrotar aqueles homens-pássaro de bico branco; afinal, foi naquele vilarejo que ela perdera a consciência.
Agora, com algum dinheiro no bolso, Lan Tian sentia-se como uma proprietária rural abastada, tomada por uma súbita generosidade, e clicou sem hesitar nas opções do papel.
Contudo, ao percorrer todos os itens, percebeu algo estranho: restavam-lhe apenas catorze moedas.
Cada “Reiniciar” custava cinco moedas, cada “Salvar” duas — o que lhe doía no íntimo.
Ainda assim, tudo era em prol da missão. Lan Tian, resignada, deixou que o papel caísse ao chão e se desfizesse em cinzas.
Dirigiu-se à porta fechada, clicou em “Continuar o jogo” e a porta se tornou um portal de luz branca. Ela e a gata, altivas, adentraram-no juntas.
Tal como antes, Lan Tian apareceu novamente no pátio de ervas até a metade da altura de uma pessoa. O sol da manhã dourava as folhas com tons de laranja e ouro, e sobre elas pendiam gotas de orvalho reluzente. Desta vez, porém, havia uma indicação no caminho.
No chão, uma seta luminosa a guiava, e a gata negra, mais animada que de costume, corria atrás dela, brincando.
Ao vê-la assim, Lan Tian pensou: “Gatos são mesmo assim, fascinados por tudo o que brilha e se move. É própria de sua natureza curiosa — eu jamais seria tola como um gato.”
Apesar da provocação mental, Lan Tian seguiu de perto a felina, chegando logo a um canteiro de flores.
Tudo era idêntico ao terreno vazio que vira pela primeira vez; ao lado, repousavam bulbos de lírio — agora apenas sete, porém de qualidade muito superior aos que cavara antes.
O cursor brilhava sobre a terra, indicando onde plantar; era muito mais fácil assim, pois, quando o buraco estava raso ou fundo demais, o marcador ficava vermelho, só passando ao verde quando atingia a profundidade correta.